
Inocncia e pecado

Penny Jordan


                                          CAPITULO I
Pela centsima vez naquele dia, Sally entreabriu a porta da sala de Leonore.
- Ele j chegou? - perguntou, ansiosa.
Sem levantar os olhos da mquina de escrever, Leonore sacudiu a cabea, suspirando:
- Ainda no. E alis, quando chegar, no vou ser a primeira a saber. Frances vai v-lo antes, na recepo. Escute, Sally, no creio que o sr. Marshall aprove voc
estar toda hora aqui em minha sala. J esqueceu que ele tem pressa desses xerox?
- Ora, Leonore, estamos esperando a visita do escritor mais famoso do pas e voc vem me falar de xerox! No est curiosa? Eu o vi ontem na televiso,  um homem
tremendamente charmoso!
- Pois eu nunca o vi nem li nada que escreveu. - Leonore olhou para a outra moa com expresso severa. - Para mim o sr. Graves no passa de mais um cliente desse
escritrio.
- No sabe o que est perdendo! Ele  moreno, alto e... - Sally continuou a enumerar as qualidades do escritor enquanto se afastava, a voz animada desaparecendo
 distncia.
As duas garotas trabalhavam no escritrio da Marshall & Marshall Contadores Associados h bastante tempo, mas Sally pouco sabia sobre sua companheira. Achava Leonore
bonita, embora no tivesse um pingo de vaidade. Sou cabelo sedoso, castanho-avermelhado, vivia preso num coque sem estilo, e s usava roupas de senhora, tanto na
cor como no feitio. Devia ter vinte e poucos anos, mas dava a impresso de ter quase quarenta.
Sem dvida, era uma moa esquisita. Nunca falava sobre a famlia ou amigos, nem se sabia se tinha namorado. Alis, no devia ter, pois sua preveno contra os homens
era evidente. No entanto, gostava de Leonore. Era a melhor secretria do escritrio e estava sempre pronta a ajud-la com aquela maldita mquina de xerox, que encrencava
todos os dias. Muito diferente de Frances, que devia auxili-la, mas era mestra em arranjar desculpas.
E agora quem ia ver o famoso Jonathan Graves em primeiro lugar? A chata da Frances, que no merecia tamanha honra. Sally no se conformava. Voltou mais uma vez 
sala de Leonore e insistiu, falando rapidamente:
- No seja boba, Leonore. D uma boa olhada nele para me contar depois. - E foi embora antes que a outra pudesse responder.
Leonore sorriu, mas logo sua boca se contraiu. No tinha nenhum interesse pelos homens, s mantendo com eles relacionamentos profissionais, como acontecia com seu
chefe. Quando algum rapaz demonstrava atrao por ela, sentia logo uma mistura de medo e desprezo que no podia controlar, evitando ao mximo o mais leve contato
com qualquer um deles.
O sexo masculino era quase estranho para ela. No havia homens no convento para onde fora mandada depois que... depois que ficara sozinha no mundo. Tinha at pensado
em se tornar freira, mas a madre superiora se opusera a essa idia, dizendo ach-la jovem demais para tomar uma deciso to importante. Leonore desconfiava, no entanto,
que o motivo pelo qual no tinha sido aceita era outro, bem diferente!
Estremeceu, lembrando com dor e horror o que lhe tinha acontecido, mas logo engoliu em seco, fazendo fora para se controlar. H muito tempo jurara apagar aquelas
recordaes de sua mente.
Deu uma olhada no relgio e depois se levantou, indo procurar Sally,
- Hora do ch. Quer vir comigo?
As duas foram juntas para a copa, onde ficaram conversando sobre trivialidades, e quando voltavam para suas salas, depois de uns quinze minutos, Sally se lastimou:
-  Devo ter perdido a chegada de Jonathan Graves! Que pena! Queria tanto v-lo de perto!
Para confirmar essa suposio, o intercomunicador tocou na mesa de Leonore. Era seu chefe que a chamava. Ela separou o bloco de taquigrafia e dois lpis bem apontados.
- Sally, prepare uma bandeja de ch. Vou lev-la para o sr. Marshall.
Enquanto esperava, Leonore olhou-se no espelho, certificando-se de que seu cabelo estava bem penteado. No havia um fio fora do lugar, como sempre. Muita gente lhe
dizia que devia usar o cabelo solto, mas ela se recusava a seguir esses conselhos ou a fazer o que quer que fosse para ficar mais atraente.
Ela era alta, de corpo esguio e bastante clara de pele, com ligeiras sardas pontilhando o delicado nariz arrebitado. Herdara o ruivo do cabelo e as sardas do pai,
que era irlands e grande aventureiro. Tinha morrido numa rebelio em Hong Kong, e sua me nunca demonstrara sentir muito sua falta, o que fez Leonore acreditar
que o casamento deles no era particularmente feliz. Como mal o tinha conhecido, tambm no sofrera com a morte do pai.
Passara a infncia com a me e com os avs, numa grande casa em Hampstead. Tinha sido uma poca feliz, em que brincava na companhia de amigas e de dois cachorros
que eram sua sombra. Mais tarde a av morreria e meses depois o av, o que tornou difcil para sua me a manuteno da casa. No tendo outra sada, resolveu aceitar
inquilinos.
Leonore sentiu que comeava a tremer, como sempre acontecia quando se lembrava de sua infncia. Sabia que no podia voltar ao passado e que era feliz com o que havia
conseguido. Tinha um apartamento e um carro e, sempre que podia, passava o dia no campo, o que ajudava muito a acalmar seus nervos.
Vivia completamente sozinha, agora. A me sempre sofrera de presso alta e, depois... depois do julgamento, praticamente recusara-se a continuar vivendo, como se
no aguentasse a vergonha que se abatera sobre a famlia.
Leonore pegou a bandeja, o bloco e os lpis e entrou no escritrio do chefe. Era uma sala forrada por estantes de madeira escura, combinando com os mveis em estilo
severo e conservador que impressionava sua atmosfera de slida respeitabilidade.
- Trouxe ch, Leonore? Excelente. - O sr. Marshall deu um leve sorriso.
Leonore era a melhor secretria que j passara pela firma. A princpio, ele havia hesitado em aceit-la, por ser muito jovem. Em pouco tempo, porm, ela provara
sua eficincia, e era to sria e responsvel que custava acreditar que tivesse vinte anos.
Leonore serviu o ch, sentindo a presena de um homem sentado  frente do sr. Marshall, e de quem s conseguia distinguir o perfil.
Apesar de no olhar para ele, percebeu que estava sendo examinada com ateno. Comeou a ficar irritada, mas pensou que ia explodir quando notou que ele se esforava
para olhar suas pernas, fingindo abaixar-se para pegar algum papel na maleta que havia deixado no cho, junto  cadeira.
 bem verdade que, mesmo com todo o esforo do mundo, o olhar do rapaz jamais seria capaz de penetrar a pesada couraa formada pelo grosso conjunto de tweed com
que Leonore estava vestida, cuja saia descia at um palmo abaixo dos joelhos.
Sentindo o rosto em fogo, uma irritao profunda transparecendo em seus olhos verdes, ela dirigiu-se ao estranho com voz gelada, perguntando se queria seu ch puro
ou com leite.
Ele virou-se e Leonore quase desmaiou de susto! Sentiu a cabea zonza, os ouvidos zunindo, toda a sala girando ao seu redor. No podia ser! No... no! Mas era.
Aquele rosto estava gravado em sua memria e jamais poderia confundi-lo com outro!
Com muito esforo, conseguiu entregar a xcara para o homem que se tornara conhecido como Jonathan Graves, mas que ela sabia chamar-se Oliver Savage. E ele tambm
a tinha reconhecido, isso era certo. Podia ver o choque em seu rosto! Ainda bem! Ele bem que merecia esse momento difcil. E o que esperava, afinal? Que ela tivesse
desaparecido, depois que ele destrura sua vida?
- Sente-se, Leonore, por favor. - Foi um alvio ouvir a voz montona do sr. Marshall. - O sr. Graves morou durante alguns anos no estrangeiro e  um escritor de
renome internacional, como voc deve saber. Jonathan Graves  seu pseudnimo. Chama-se na realidade Oliver Savage. Voltou agora para a Inglaterra e precisa de orientao
quanto a impostos e direitos autorais. Quero que tome nota de tudo o que for dito aqui e depois bata para ele um relatrio com todas as informaes.
Embora aparentando calma, a mente de Leonore fervilhava. Que tipo de livros escreveria ele? Deviam ser to sensaciona-listas como os trabalhos que publicava quando
era jornalista. Escritor famoso... Logo ele, que deveria ser proibido de escrever. Pois tanto mal j havia causado com suas palavras maldosas, distorcendo a verdade
para se promover!
Num esforo supremo, ela se concentrou no que o chefe dizia. Depois ouviu a voz de Oliver. Era a mesma de seis anos atrs, profunda, melodiosa, cheia de expresso,
embora falasse apenas sobre negcios.
Tinha virado a cadeira para no encar-lo, mas, para sua surpresa, notou que ele tambm ajeitara a poltrona ficando de frente para ela, disposto a observar cada
movimento que tivesse. Sentiu um mal-estar to grande que o lpis caiu-lhe das mos e rolou pelo cho.
Abaixou-se para peg-lo, porm, Oliver foi mais rpido e alcanou-o primeiro, roando, sem querer, o brao dela. Leonore se retraiu bruscamente, os olhos brilhando
de dio e medo. Ele no pde deixar de perceber essa reao violenta e afastou-se tambm, entregando-lhe o lpis sem dizer nada.
Oliver no mudou nada. Continua o mesmo homem atraente e capaz de conquistar  primeira vista a confiana das pessoas, com seu ar calmo, seguro e inteligente, pensou
Leonore. Bem sabia como ele tinha abusado desses poderes egoisticamente, como a tinha usado, destrudo e concorrido para a morte de sua me...
Ela passou a mo pela testa, tentando se livrar daqueles pensamentos que a torturavam. Estava agora com quase vinte e um anos, no era mais aquela ingnua garota
de quinze, inexperiente demais para enfrentar algum como Oliver, que apesar de jovem j era um homem naqueia ocasio. Quantos anos ele teria agora? Mentalmente,
Leonore fez as contas. Vinte e sete. Rico, famoso, no havia dvida: tinha tudo para estar mais seguro ainda.
Seis anos! Quanto tempo j se havia passado desde a poca em que deixara de repente de ser criana para enfrentar o mundo! Oliver teria conscincia do que representara
em sua vida? Fazia idia da carga pesada que ela tivera de carregar durante todos esses anos?
Suspirou aliviada quando o sr. Marshall a dispensou. Queria evitar se encontrar de novo com Oliver. Ele continuava o mesmo e era perigoso. No podia dar-lhe nenhuma
chance de atingi-la
outra vez.
Sally estava  sua espera quando saiu do gabinete do chefe.
- Diga, ele  to sensual como nas fotografias?
- No sei. Nem olhei.
-  S mesmo voc para perder uma oportunidade dessas! Pois vou ficar de olho, fao questo de v-lo na sada. Acha que vai ficar l dentro muito tempo?
- Provavelmente, Sally. Sabe como o sr. Marshall . Adora explicar tudo nos mnimos detalhes.
- Voc ainda tem muita coisa para fazer hoje?
- No. S preciso bater estas anotaes  mquina. E vou fazer isso j, porque quero ir embora mais cedo.
Leonore tinha decidido no ficar no escritrio. Deixaria seu servio pronto e iria embora antes que Oliver Savage sasse da sala do sr. Marshall. No queria tornar
a v-lo. Sentou-se e comeou a datilografar, com todo cuidado, procurando no errar para no perder tempo. Quando terminou a ltima folha Sally apareceu, agitada,
as mos cobertas de tinta.
- Ah, Leonore, que bom que ainda est aqui! No consigo fazer aquele raio de xerox funcionar e estou com uma pilha de documentos para copiar. O sr. West faz questo
de v-los antes do fim do expediente. No sei mais o que fazer!
-  Vou dar uma olhada para voc. - Grampeou as folhas datilografadas, cobriu a mquina e saiu com Sally.
Levou bastante tempo para descobrir qual era o defeito, e mais ainda para consert-lo, diante do olhar ansioso da companheira. Finalmente as cpias comearam a sair
boas.
Voltou depressa para o prprio escritrio, s para pegar a bolsa e ir embora, mas nesse momento a porta do sr. Marshall se abriu e ele veio em sua direo, acompanhado
de seu cliente.
- J preparou as anotaes, Leonore?
Sem olhar para nenhum dos dois, pegou o relatrio e entregou-o ao chefe. Em seguida, estendeu a mo para pegar a bolsa e perguntou se j podia ir embora. O sr. Marshall
olhou-a surpreendido. Ela nunca havia pedido para sair mais cedo.
Antes que ele respondesse, o telefone tocou e ela o atendeu. Era a sra. Marshall, e Leonore aproveitou a oportunidade para sair, mas Oliver alcanou-a junto  porta:
- Leonore...  voc, no ?
Ela ficou paralisada, incapaz de se mexer ou responder.
- Quero falar com voc. Vou lev-la para casa.
- No!
Oliver ficou chocado com a violncia da recusa. Estudou o rosto dela, suas roupas de matrona, os olhos assustados. Num gesto muito delicado, passou os dedos pelo
rosto plido. Ela se retesou, dando um passo para trs.
- Voc est com uma mancha de tinta no rosto - ele explicou.
- Estive consertando a mquina de xerox. - Leonore queria ir embora, fugir daquela presena perturbadora, mas sabia que precisava controlar suas emoes. Sua prpria
experincia lhe ensinara que de nada adiantava gritar ou entrar em pnico.
- Preciso falar com voc.
- No!
O sr. Marshall entrou novamente na sala, pois tinha ido atender o telefone em seu prprio gabinete, e mais que depressa Leonore tentou disfarar sua confuso. No
entanto, parecia que naquele dia era impossvel escapar de apuros. Horrorizada, ouviu Oliver dizer:
- Vai nos desculpar, sr. Marshall, mas prometi uma carona para sua secretria. Ela tem um compromisso importante esta noite e j est atrasada.
O sr. Marshall ficou perplexo. Nunca, desde que comeara a trabalhar ali, Leonore dera ateno especial a qualquer de seus clientes, e jamais sara mais cedo. Que
mudana seria essa? Mas antes que pudesse avaliar melhor a situao, Oliver j havia tomado a moa pelo brao, avisando que passaria no escritrio outro dia, e os
dois desapareceram de sua frente.
Quando chegaram  rua, Leonore no escondeu sua indignao. Puxou o brao com fora, o rosto corado de tanta raiva.
- No vou a lugar nenhum com voc. No estou o mnimo interessada no que quer que tenha para me dizer. Fui bem clara?
- Finalmente! J est falando bem mais que o bloco de gelo que encontrei no escritrio. Ainda bem que ainda  humana. - E tornou a segurar-lhe o brao.
- No me toque! - falou com os dentes apertados.
- Meu Deus! Sabe que procurei voc durante cinco anos?
Ela lanou-lhe um olhar to frio e distante que, por um segundo, ele no encontrou o que dizer. Foi um triunfo para ela. Pelo menos tinha alcanado uma pequena vitria,
por mnima que fosse. Conseguira fazer Oliver calar-se, ele que sempre fora to esperto e hbil com as palavras.
- Leonore... precisamos conversar.
- No quero falar com voc, ouviu bem? Nunca mais quero ouvir sua voz.
Estavam parados na calada, naquela hora em que quase todos se dirigiam apressadamente para casa. Em meio ao movimento, algum esbarrou neles e Leonore aproveitou-se
do incidente para livrar-se da mo que a mantinha presa pelo brao. Foi o suficiente. Saiu correndo, misturando-se com a multido, sem se importar com a direo
que tomava. Queria ir para qualquer lugar, desde que fosse o mais longe possvel de Oliver. Corria sem parar e sem olhar para trs.
Felizmente um txi parou em frente a ela, numa esquina, para deixar um passageiro. Sem hesitao, entrou no veculo.
Quando o carro partiu, teve a impresso de ver, ao longe, o rosto zangado e incrdulo de Oliver Savage.
De onde ele tinha surgido? Por que aparecera de novo em sua vida?
Estava to bem, e agora a presena dele vinha de novo para lhe despertar amargas recordaes. Recostou-se no banco, exausta, louca para chegar em casa e chorar.
                                                           CAPITULO II
Estava agitada demais para comer. No conseguia parar de andar de um lado para outro no pequeno apartamento, at que finalmente tomou uma deciso.
Entrou no quarto e tirou uma caixa do fundo do armrio. Ela a tinha recebido depois da morte da me. No convento, a madre superiora quisera queimar tudo, mas a assistente
social tinha sido firme, dizendo que Leonore um dia teria que enfrentar aquilo para poder superar melhor os fatos e encarar a realidade.
Nos primeiros meses, lera e relera tudo centenas de vezes, obsessivamente, at no aguentar mais. Ento guardara a caixa para nunca mais abri-la.
Suas mos tremiam ao levantar a tampa de papelo. Havia ali vrios recortes de jornais e revistas, tudo j um pouco amarelado pelo tempo. Respirou fundo, tomando
coragem para mergulhar naquele perodo de dor e sofrimento. Pegou o primeiro recorte e leu:
"Adolescente acusa o padrasto de tentativa de estupro." Logo abaixo aparecia uma foto dela, aos quinze anos, o cabelo longo e vermelho batido pelo vento. Rachel
Hartford, a assistente social encarregada do caso, segurava sua mo. Pobre Rachel! Tambm tinha sofrido tanto com os acontecimentos que quase desistira da profisso.
Leonore continuou lendo os recortes, que estavam arrumados em ordem cronolgica. Muitos eram da imprensa sensacionalista, contando detalhes escabrosos e srdidos.
Construam a
histria baseados em informaes de vizinhos. Em seguida, vinham as notcias que falavam do julgamento.
Ela se recostou na cama, fechou os olhos e reviveu os momentos de horror que havia passado no tribunal. O padrasto arranjara um advogado esperto e cheio de truques,
que tinha a reputao de nunca ter perdido um caso. No sabia como ele podia ter pago um advogado to caro... Enfim, sara arrasada do hbil interrogatrio desse
homem para cair nas mos de Oliver Savage, que no lhe ficava atrs em esperteza.
Nem tinha percebido que Oliver era reprter. S foi se cons-cientizar disso quando seu artigo foi publicado, num jornal srio e tradicional, por isso mesmo de grande
influncia. Ainda, agora, depois de tantos anos, no conseguia ler suas palavras cruis sem sofrer.
"No feche seu passado numa concha", o psiquiatra lhe dissera. "Fale sobre ele, pense nele, at que consiga expuls-lo de sua mente."
Mas Leonore era sensvel demais e aquilo lhe causava tamanho mal-estar que simplesmente no conseguia ser realista e assumir os acontecimentos. Tornara-se reprimida
e introvertida, jamais mencionando sua famlia a quem quer que fosse.
Se pelo menos no tivesse tornado a ver Oliver Savage! Poderia manter seu passado fechado naquela caixa, como vinha fazendo h tanto tempo! Mas agora era tarde demais.
As memrias inundavam-lhe a alma, forando-a a recordar...
Tinha treze anos, quando os avs morreram. Sentira muito a falta deles e sofrera mais ainda pelo fato de sua me, Elaine, ser obrigada a aceitar inquilinos na casa.
Primeiro tinham alugado o quarto vago para uma professora, e tudo correu bem at que esta, alguns meses depois, teve de sair da cidade. Sem o dinheiro do aluguel,
recomearam as preocupaes e a procura de um novo inquilino.
Um dia, voltando da escola, Leonore encontrou a me conversando animadamente com um homem grande, moreno, meio gordo e careca. Assim que o viu, no gostou dele.
- Este  o sr. Bill Trenchard - Elaine explicou. -  vendedor e vai alugar o quarto aqui em casa.
Leonore achou esquisito o modo como o homem olhava para sua me, parecendo muito interessado nela. Alm disso, seu horrio de trabalho tambm parecia esquisito,
pois sempre que chegava em casa encontrava os dois na cozinha, conversando. Acima de tudo, incomodava-a a maneira como ele reparava seu corpo de adolescente, que
comeava a se transformar. Decididamente, gostava dele cada vez menos, e desejava ardentemente que tambm mudasse de emprego e fosse embora, como a professora.
Queria contar  me como se sentia, mas notava que Elaine estava feliz e contente, parecendo apreciar muito a companhia do tal homem. Numa das vezes em que voltou
da escola, encontrou os dois se beijando. Queria morrer! O que a me e aquele estranho pretendiam?
Fechou-se num mundo de angstia e apreenso, incapaz de se expandir, sem confiar em ningum para contar o que estava acontecendo em sua casa. Evitava encarar a me
e principalmente Bill, mas sentia que ele continuava a olh-la com insistncia.
Como se fosse um pesadelo. Elaine lhe contou um dia que ia casar com ele. No pde esconder a tristeza que essa notcia lhe causou.
- Por favor, minha filha, tente compreender! Estou sozinha h tanto tempo e Bill  to bom! Seremos uma famlia de verdade, porque ele adora voc. Sei que no comeo
voc vai estranhar, nunca conviveu com um pai, mas...
- Bill no  meu pai! - Leonore gritou.
Nesse momento, a porta se abriu e ele entrou. Olhou-a de modo to sombrio que a fez sentir medo. Ele no disse nem fez nada. Aliviada por no ter que falar com ele,
mas com o corao pesando como chumbo dentro do peito, saiu da cozinha, ainda a tempo de ouvi-lo comentar com sua me:
- No se preocupe, minha querida.  uma reao normal na idade dela. Talvez esteja com cime...
Cime?! Leonore procurou ser honesta consigo mesma, mas no encontrou dentro de si nenhum vestgio do desejo egosta de ter a me s para si. Pelo contrrio, gostaria
de v-la feliz,
ao lado de um companheiro que a amasse. Apenas sentia que Bill Trenchard no era o homem ideal, sequer uma boa pessoa, embora no pudesse explicar porque tinha tanta
certeza disso.
Eles se casaram um ms depois, apenas no civil. Leonore sara com a me para comprar um vestido para a ocasio, e teria ficado feliz com a oportunidade de ganhar
uma roupa nova, se o futuro padrasto, que resolvera acompanh-las, no tivesse insistido para que comprasse um bem curto, dizendo, entre sorrisos e brincadeiras,
que afinal suas pernas eram longas e muito bonitas. Tudo pareceu natural aos olhos de sua me e da vendedora, e ela acabou concordando em experiment-lo e, por fim,
em compr-lo, no sem um certo constrangimento.
Depois da cerimnia tinham ido jantar. Tomaram vinho e, pela primeira vez em muitos anos, Leonore viu a me com os olhos brilhando de alegria. Se ao menos ela tivesse
continuado assim...
O casal resolvera no sair em lua-de-mel, e a filha iria ficar alguns dias na casa de uma amiga, para deix-los  vontade. Quando desceu, carregando sua maleta,
encontrou o padrasto sozinho na cozinha.
- Sua me acabou de subir. - Bill aproximou-se dela, que sentiu seu hlito forte de bebida. - E agora que sou seu padrasto, que tal me dar um beijinho?
Leonore nunca fora expansiva. Estava acostumada a beijar os avs e a me, mas isso porque os amava, e como no gostava de Bill, no via por que deveria fazer o mesmo
com ele. Olhou para o cho, sem saber o que fazer.
-  Ainda est aborrecida? - Ele falava com voz melosa e desagradvel. - Eu compreendo, isso vai passar...
Ela no respondeu e deu um passo para trs, sentindo que Bill no desistiria facilmente de seu pedido.
- No precisa ter medo de mim, minha querida. Vamos, d um beijinho em seu novo amigo e faamos as pazes.
Enquanto falava segurava-a com firmeza pelos ombros, impedindo-a de recuar. Aquela insistncia j estava exagerada e as mos dele a apertavam com fora. Comeou
a se debater e quis gritar, mas se conteve, rezando para que a me aparecesse.
Como em resposta quelas preces, ouviu um rudo de passos na escada. Bill soltou-a e eta correu para a sala.
Mal dormiu aquela noite, no entendendo como a me pudera gostar de um homem to horroroso. Lgrimas quentes molhavam seu rosto, enquanto pensava no futuro que teria
ao lado daquele padrasto a quem detestava.
No tentou explicar o que sentia  sua me, para no atrapalhar a felicidade dela. Bill continuava com seus pequenos avanos, muitas vezes dando ligeiros belisces
em seu brao com ar inocente e carinhoso. Sua me olhava tudo com boa vontade, achando que o marido estava querendo se aproximar da filha.
Para agradar a Elaine e ver se ele a deixava em paz, Leonore comeou a trat-lo com mais cordialidade. No entanto, a atitude dele continuava a mesma, sempre tentando
toc-la ou abra-la, e com mais empenho, quando a me no estava por perto. S ficava tranquila, quando ele tinha de viajar a negcios, ausentando-se s vezes por
vrios dias.
Mas logo aconteceu o pior. Seis meses depois do casamento, Bill perdeu o emprego e, de uma hora para outra, o rosto de Elaine comeou a ficar marcado de preocupao.
Bill aos poucos foi revelando sua verdadeira personalidade, dando para beber e gritar com a mulher, que muitas vezes chorava desconsoladamente.
Uma tarde, quando chegou da escola, Leonore encontrou-o na poltrona, diante da televiso. Perguntou pela me.
- Est deitada, chorando e se lastimando como sempre. Se ela fosse um pouco mais gentil, talvez as coisas fossem diferentes. - A voz dele estava pastosa, revelando
que tinha bebido muito. - Alis vocs duas so iguais, no sabem como agradar a um homem. - Olhou-a de modo estranho. - Talvez eu devesse lhe fazer um favor e lhe
ensinar algumas coisas, antes que seja tarde demais.
Ela subiu correndo, procurando a proteo da me. Encontrou-a to abatida, os olhos vermelhos e inchados, que resolveu no preocup-la ainda mais, contando o que
o padrasto dissera.
Ela j estava bastante infeliz sem saber daquilo. O jeito era evitar o mximo possvel ficar a ss com ele.
Bill no fazia o menor esforo para arranjar outro emprego e passaram a viver do pequeno capital que os avs de Leonore tinham deixado. Ele bebia cada vez mais,
explodindo com frequncia. Gritava, quebrava pratos contra a parede e chegou a dar um soco violento no brao da menina, porque ela demorara a servir o ch. Elaine
refugiava-se em seu quarto, a cabea doendo, o rosto plido e sofrido de uma mulher fraca e arrasada.
Quando Leonore fez quatorze anos, ela sugeriu que a filha convidasse algumas amigas para comemorar, e viu com desgosto que a menina rejeitava a idia, com medo de
que as companheiras vissem a situao em sua casa. Leonore isolava-se cada dia mais.
Foi a professora de educao fsica quem primeiro percebeu que ela estava com problemas, ao perceber uma mancha roxa em seu brao. Ficou com d da menina. No era
a primeira vez que se deparava com uma garota maltratada pelos pais.
- O que aconteceu com voc? - perguntou a srta. Kellaway.
- Bati na porta quando sa de casa. No est doendo.
A professora no disse nada, mas foi conversar com a diretora.
- Claro que pode ter sido um acidente, mas... acho que Leonore anda retrada demais. Est sempre sozinha, vive meio area como se tivesse com a cabea em outro lugar.
Talvez fosse bom visitar a famlia e tentar saber se est acontecendo alguma coisa de errado.
A diretora concordou com um suspiro. A srta. Kellaway era recm-formada e ainda tinha muitos ideais, como esse de acompanhar de perto os problemas dos alunos, descobrir
suas causas.
Estavam no fim do semestre, faltando uma semana para as frias. O dia estava quente e Leonore caminhava depressa, com os livros debaixo do brao. Tinha muito o que
estudar para as provas finais e queria chegar logo em casa, trancar-se no quarto e ler o que precisava. No entanto... era com terror que se aproximava da prpria
casa. J h algum tempo no podia mais desconhecer o fato de que o padrasto a desejava fisicamente, e vivia dominada pelo medo.
Entrou na cozinha e encontrou-a vazia. Que sorte! Era horrvel encontr-lo sempre ali, esperando por ela, percorrendo seu corpo com os olhos injetados pela bebida,
tentando adivinhar as formas que se escondiam sob o uniforme escolar.
Foi para a sala na ponta dos ps, e Bill no estava l tambm. Que bom! Ia conseguir chegar em cima sem ter que ver aquele rosto odiado. Foi dar um beijo em sua
me e encontrou-a deitada como sempre. Parecia estar se consumindo, sem ter foras para viver. Mais uma vez insistiu para que fosse ao mdico, mas Elaine s balanou
a cabea desanimada, dizendo que estava bem.
- Como foi de escola?
Leonore sentou na beira da cama e contou seu dia. Depois sugeriu que tomassem um ch,
-   uma boa idia, Leonore. Traga a bandeja aqui para cima. Bill saiu.
-  Est bem, vou tomar um banho primeiro e depois subo com o ch.
- timo.
Quando entrou no banheiro, o trinco, que estava um pouco solto, caiu em sua mo. Precisava avisar a me para mandar troc-lo. Em todo caso, ia tomar banho assim
mesmo. No haveria perigo em deixar a porta aberta, j que Bill no estava em casa.
Encostou-a ao mximo, tirou a roupa e entrou no chuveiro. Enquanto se ensaboava, notava como seu corpo tinha mudado em pouco tempo. Sua cintura havia se afinado
e os quadris arredondados j eram quase os de uma mulher. Era alta e magra, com seios pequenos e firmes, e longos cabelos que lhe caam quase at a cintura. Deixou-se
ficar sob a ducha forte, sentindo uma agradvel sensao de relaxamento depois do dia exaustivo que enfrentara na escola.
Foi ento que a porta do banheiro se abriu e Bill entrou, puxando a cortina do box.
- Ora... ora... que belo espetculo!
Completamente em pnico, Leonore ficou paralisada diante do olhar lascivo daquele homem embriagado. Bill fechou a porta e encostou-se pesadamente a ela, impedindo
qualquer tentativa de fuga da menina.
Leonore tentou pegar a toalha, mas ele a impediu com uma das mos, os olhos brilhando.
- No est tentando se esconder do velho Bill, no ? Sabe, o seu problema  que  muito fechada, reprimida...
- Saia daqui! - ela gritou com horror, ou pensou que gritou, pois sua voz saiu estrangulada, quase inaudvel.
Bill chegou mais perto e ela se encolheu toda, sentindo o estmago se contrair em nusea. As lgrimas comearam a cair abundantes de seus olhos.
- Fique longe de mim! - conseguiu dizer mais uma vez.
- Ora, Leonore, o que  isso? No vou machucar voc. No est curiosa para saber como  que se faz com um homem?
- Odeio voc, odeio voc.
Tentou empurr-lo enquanto ele ria, abraando-a com fora pela cintura.
- No faa assim menina, fique calminha, seno eu vou ter que bater nesse corpinho lindo...
Comeou a beij-la e a apert-la, cada vez mais fora de si, sufocando os gritos dela com a boca e as mos, forando-a a deitar-se no cho.
Lutando com a sensao de desmaio que a invadia, esmurrando as costas, o rosto e tudo que podia atingir do corpo de Bill, Leonore viveu ali os mais terrveis momentos
de sua vida, sabendo que nada poderia evitar que fosse violentada por aquele homem repugnante.
Foi ento que ouviu a voz de Elaine que a chamava, ao mesmo tempo em que abria a porta do banheiro e se defrontava com a viso chocante de seu marido deitado sobre
a filha nua!
Bill levantou-se no mesmo instante, mas Leonore continuou no cho, aterrorizada, paralisada e envergonhada demais para se mexer. Fitava a me com os olhos extraordinariamente
abertos, sentindo um frio imenso invadir-lhe o peito  medida em que percebia raiva e censura em seu olhar.
- Foi ela que me provocou, Elaine. - Bill agarrou-se  esposa, fingindo-se transtornado. - Vivia passando na minha frente rebolando os quadris, mostrando as pernas,
oferecendo-se de todas as maneiras quando voc no estava por perto. Ela me odiava por achar que eu a tratava como criana, queria me mostrar que era to mulher
quanto voc...
Leonore no podia acreditar no que ouvia. Queria pedir ajuda, explicar para a me como tudo tinha acontecido, mas a frieza desta e seu olhar ressentido, tiveram
o mgico poder de faz-la sentir-se quase que culpada. Levantou, cobriu o rosto e saiu correndo, percebendo ao mesmo tempo que a me evitava olhar para ela e afastava-se
pelo corredor, amparada pelo marido.
Depois de sofrer a violncia fsica praticada por Bill, foi arrasada pela violncia maior ainda do abandono afetivo da me, naquela hora to importante.
Habituada a fechar-se em si mesma, Leonore enfrentou, na solido de seu quarto, uma noite de pesadelos e sobressaltos, assustando-se com o menor barulho.
Levantou bem cedo, vestiu-se e foi para a escola. Estava com manchas roxas nos seios e nas pernas. Que horror!
No conseguiu se concentrar nas aulas. A ltima era de educao fsica. J estava terminando quando a diretora apareceu acompanhada de um homem, o inspetor escolar.
Leonore nervosa quase caiu, quando chegou sua vez de fazer os exerccios na barra. Teria se machucado seriamente se o inspetor no a tivesse segurado.
Ao sentir o contato daquelas mos masculinas, alguma coisa se rompeu dentro dela. Comeou a gritar histericamente e a se debater. Em estado de choque, sabia somente
que um homem a estava agarrando, como seu padrasto havia feito!
Voltou a si deitada no sof do escritrio da diretoria. A sra. Kellaway tambm estava l, mas o inspetor no. Havia uma outra mulher, que lhe apresentaram como Rachel,
do servio social.
- No fique assustada, Leonore. - A diretora comeou a falar com voz bondosa. - Estamos aqui para ajud-la... - Ela parou, embaraada.
Rachel, a assistente social, tomou a palavra.
- Sua professora de educao fsica nos contou que um dia voc veio para a escola com um machucado no brao. E hoje, percebemos que est com o corpo cheio de marcas
roxas. Nossa suposio  de que voc pode ter sido violentada. - Ela fez um sinal para que Leonore a deixasse terminar de falar. - Sei que no quer falar sobre isso.
Talvez nem queira admitir que isso tenha acontecido. Mas voc no  a primeira garota que vive esse drama nem ser a ltima. S queremos ajud-la. No h motivo
para ficar com medo.
Leonore abaixou a cabea, envergonhada demais para enfrentar aquela mulher que nem conhecia.
-  A lei a protege. No sabe que  crime abusar de uma menina? No sabe que  crime ter um ato sexual com uma garota de menos de dezesseis anos? Voc precisa se
livrar desse namorado violento. Tem um namorado, no tem?
Ela apenas sacudiu a cabea, negando. Como podia contar o que tinha acontecido? Estava morrendo de vergonha, confusa, amedrontada, odiando a si mesmo e a seu corpo.
- Vamos ter que examin-la, Leonore. - Rachel continuava falando. - No  nada demais, no precisa ter medo. Venha, a mdica vai v-la.
Leonore desesperou-se.
- Por favor, no... ele no chegou a... - As lgrimas impediram-na de continuar.
-  Fique calma. No vamos for-la a nada. Acredito em voc, e sei que no teve culpa do que lhe aconteceu. Queremos ajud-la, mas para isso ter que nos contar
tudo.
Ela queria, e muito! Mas como expor sua me quela vergonha? Alm disso, tinha medo que Bill a castigasse por ter contado a verdade. E iriam acreditar nela? No
poderiam pensar que ela  que tinha provocado aquela situao, quando soubessem quem fora o homem?
Em voz muito baixa, bem perto de seu ouvido, Rachel ajudou-a:
- Sei que tem padrasto, Leonore. Foi ele?
Ela comeou a chorar baixinho, e logo Rachel a abraou. Com muito tato e carinho, acabou conseguindo extrair dela a histria toda.
- Agora oua bem, Leonore. Tire da cabea qualquer sentimento de culpa pelo que seu padrasto fez.  ele que est errado e acho que homens assim deveriam ser fuzilados!
Quando penso no mal que ele podia ter causado!
Leonore ainda chorava mansamente, sentindo-se segura perto daquela moa que at ento lhe era desconhecida, e que agora parecia ser a nica pessoa que a compreendia
no mundo!
-  Para seu prprio bem acho que seria melhor morar em outra casa. Pelo menos por enquanto. No vai ser por castigo, porque no  culpada de nada, mas para sua prpria
proteo.
- Minha me...
- No se preocupe. Explicaremos tudo a ela.
Leonore no retrucou. Aceitaria essa soluo porque ia se ver livre do padrasto. Seus maus momentos tinham passado! Mas estava muito enganada. Eles mal tinham comeado!
                                                    CAPITULO III
O departamento de servios sociais instalou Leonore numa casa de famlia. O incio das frias coincidiu com a mudana, evitando que a menina tivesse de enfrentar
a curiosidade das companheiras de escola. Rachel a visitava regularmente e tambm a srta. Kellaway. S Elaine nunca a tinha ido ver.
Leonore no compreendia a atitude da me. Conversou sobre isso com Rachel.
- Ela no est boa. Tente compreender. Ela se sente tremendamente culpada por t-la exposto a Bill Trenchard, mas como no consegue suportar a culpa, transferiu-a
para voc. E mais fcil para ela acreditar que voc o provocou, embora, no fundo do corao, saiba que a verdade no  essa.
- Ento... ela no quer me ver?
Rachel respirou fundo. Esse era um dos piores casos de que j tinha participado. Gostaria de fazer algo mais concreto para ajudar Leonore. A pobre criana estava
chocada, rejeitada e profundamente solitria, enquanto que o homem responsvel...
Apertou Leonore nos braos, procurando transmitir-lhe confiana.
- Sua me  uma mulher fraca e dependente. Tem a sade delicada e precisa de algum em quem possa se apoiar.
Isso era verdade, ela reconhecia. Contudo, ela tambm precisava de apoio, carinho e compreenso. Quem faria isso se sua prpria me se recusava? Foi ento que adquiriu
a conscincia profunda de que cada pessoa s podia contar consigo mesma nesse mundo. Estava errada, mas demorou anos para livrar-se desse pensamento doloroso.
- Vamos processar Bill Trenchard - Rachel falou. - Ele  culpado de tentar violentar uma menor e tem que ser castigado por isso. Temos que contar com sua ajuda,
Leonore, por mais desagradvel que seja para voc. Procure pensar que outra menina pode passar pela mesma situao, se no o denunciarmos, a ele e a todos os homens
irresponsveis que pudermos denunciar.
- Vou precisar contar como tudo aconteceu?
- Vai. Sei que no ser fcil, mas tenho certeza de que valer a pena.
Leonore gostava de Rachel e a respeitava, por isso concordou. Iria reviver aqueles momentos de angstia no tribunal, cont-los em seus detalhes constrangedores,
tudo para que a justia fosse feita. Naquela poca ainda era bastante ingnua para acreditar que a verdade tinha fora por si s e que vencia sempre. Achou tambm
que daria uma demonstrao de covardia, se recusasse.
O caso apareceu nos jornais. Rachel insistia para que ela lesse os artigos, e se preparasse para enfrentar a opinio pblica. Teve uma pequena amostra do que se
passava na cabea das pessoas ao conversar pela primeira vez com o advogado:
-  Seu padrasto vai dizer que voc o provocou a tal ponto que no resistiu, Leonore. Agora, preciso lhe fazer uma pergunta importante. Voc realmente tentou seduzi-lo?
At mesmo o advogado do servio social desconfiava dela a priori!  claro que logo viu que era sincera, mas, ainda assim, tivera que perguntar.
Mais tarde, sozinho com Rachel, ele comentou:
-  Odeio esses casos. Em geral as meninas sofrem muito. Para torn-lo pior ainda, soube que Bill Trenchard contratou um advogado habituado a esse tipo de crime.
Ele  muito direto e tira o maior proveito dos detalhes erticos. Duvido que consiga livrar Bill Trenchard, mas vai fazer Leonore passar um mau pedao,
- Bill Trenchard vai ser condenado, no tenho dvidas! - Rachel falou com veemncia. - J pensou que ele poderia t-la destrudo, como mulher? Precisava ver como
ela gritava, fora de si, quando o inspetor escolar a tocou.
-  Leonore  uma menina muito sensvel e isso ainda vai tornar as coisas piores para ela.
-  Alm disso, h ainda a questo da me, que no quer v-la. Isso est sendo terrvel para ela - Rachel acrescentou.
- Acontece muito nesses casos, Rachel. As mes procuram ignorar o fato, divididas entre a filha e o homem que amam. Ou at mesmo quando no amam mais o companheiro.
Sentem-se humilhadas e querem fechar os olhos.
- Vamos ter dias pssimos naquele tribunal.
- Tem razo. E no se esquea que Leonore  uma garota linda e que o pblico em geral tem uma tendncia a acreditar que a moa  que provocou, principalmente quando
 bonita.
- Tenho muita pena dela...
Leonore isolou-se de vez. Passou a ter dio de seu corpo e nunca mais se olhou no espelho quando estava sem roupa. No deixava mais seu belo cabelo solto e s vestia
calas compridas bem largas e malhas imensas, que encobriam totalmente suas formas bem feitas. A atitude de sua me a levava a perguntar-se mil vezes por dia se
no teria mesmo encorajado alguma vez o padrasto. Sabia que no, mas no conseguia livrar-se daquela angstia.
Chegou o dia do julgamento. O tribunal estava repleto de reprteres e curiosos. Como o advogado havia previsto, fizeram Leonore em pedaos. Muitas vezes ela no
conseguia continuar com seu depoimento, porque um choro convulsivo a impedia de falar.
No segundo dia, o advogado de Bill Trenchard insistiu para que Leonore se mostrasse vestida como uma adolescente normal da poca e no com aquelas roupas soltas
e disformes. Seu advogado protestou, mas o juiz indeferiu.
Ela foi obrigada a expor-se a todos os olhares usando um vestido muito curto de malha verde. A acusao exigiu ainda que soltasse os cabelos, e quando aquela cascata
de fogo emoldurou-lhe o rosto e envolveu seus ombros, todos os presentes no tribunal sentiram-se, pelo menos inconscientemente, tentados a justificar, de alguma
forma, Bill Trenchard.
-  Olhem para ela - chamava o advogado. - E s imagin-la com um pouco de maquilagem e com as maneiras provocantes de toda adolescente, para compreender que nenhum
homem pode ser condenado por um momento de fraqueza. E lembrem-se que a via todos os dias, e que no estava ligado a ela por nenhum lao de sangue... - E continuou
nessa linha de argumentao.
Apesar de ignbil, sua defesa foi to eloquente que at mesmo Leonore comeou a convencer-se de que era uma verdadeira Mata Hri e que a reao de seu padrasto fora
quase natural.
Ainda assim, Bill Trenchard foi condenado, embora com vrias atenuantes. Os jornais aproveitaram a oportunidade para discutir acerca da sexualidade dos adolescentes
e da idade mnima aceitvel para que se mantivessem com eles relaes sexuais, sem estar com isso cometendo um crime.
Finalizando o julgamento, o juiz determinou a sentena: Bill Trenchard ficaria preso por seis meses e Leonore deveria ir para um orfanato, numa cidade vizinha. Tudo
isso se passou sem que voltasse a ver sua me, ou soubesse notcias dela.
Algum tempo depois de ter se mudado da cidade, no aguentou e resolveu procur-la. Tinha de falar com ela, saber se ainda era querida, apesar das aparncias. Pegou
um nibus e foi para Hampstead. Encontrou Elaine sozinha, deitada, parecendo mais velha do que nunca, abatida e esgotada. Ela mal olhou para a filha e depois desviou
o rosto.
-  Como teve coragem de voltar, depois do que fez? Disse tantas mentiras, me deixou to envergonhada!
- Mame! Voc mesma viu...
- Seu padrasto tem razo, Leonore. Voc  vulgar.  o sangue ruim que herdou de seu pai. Nenhuma moa decente faria o que voc fez, indo contar sua vida daquela
maneira no tribunal! Voc no  mais minha filha! Por sua causa Bill est na priso, mesmo depois de eu ter gasto at o ltimo centavo para que pudesse contratar
o melhor advogado!
Leonore sentiu o cho fugir sob seus ps. Como ia poder continuar vivendo? Sua vista estava turva pelas lgrimas abundantes que escorriam por seu rosto. Pegou o
leno do bolso da cala, enxugou o rosto e saiu correndo dali.
No reparou no carro parado em frente  casa. S viu o outro, que vinha descendo a rua com bastante velocidade. Ouviu ao longe a buzina estridente e sentiu que braos
fortes a seguravam, puxando-a de volta para a calada. Procurando livrar-se das mos que a mantinham de p, viu-se diante de um rapaz moreno e alto.
- Tome cuidado! Poderia estar morta agora!
Era exatamente o que ela queria e esse desconhecido estpido a tinha impedido. Comeou a tremer incontrolavelmente.
-  O que aconteceu? - O rapaz ainda a segurava. Depois olhou para a casa de onde ela tinha sado e de novo para ela.
Leonore no podia suportar aquele contato. Embora o rapaz fosse jovem e bonito, o simples fato de ser homem e a estar sustentando com firmeza, a fazia sentir-se
enjoada.
- Por favor... - murmurou, quase caindo.
Ele a segurou com mais fora. Tinha os olhos castanhos, muito expressivos e, sem saber porque, Leonore de repente confiou nele.
- Mora aqui perto? - ele perguntou.
- No! - ela gritou instintivamente. Com mais calma, acrescentou. - Vim visitar algum e estou indo para casa agora.
- Posso lhe dar uma carona?
- Obrigada. Vou tomar o nibus.
Encarou o rapaz. Era estranho, mas sentia que ele era bom e que podia estar a seu lado sem correr perigo nenhum. Havia gentileza e compreenso naqueles olhos que
a fitavam com interesse. Mesmo assim, no ia aceitar a carona. Ps a mo no bolso para pegar o dinheiro da passagem.
No encontrou um centavo! Revirou os bolsos, procurou de novo, e nada. S ento se lembrou que usara o leno na casa da me. Devia ter deixado o dinheiro cair naquela
hora. E agora? Ia voltar para pegar? Nunca!
- Tem certeza de que no quer vir comigo? Posso baixar a capota do carro e voc vai gostar de sentir o vento batendo no rosto.
- Eu... eu... - Devia contar que tinha perdido o dinheiro? E se ele perguntasse por que no emprestava dos amigos que tinha ido visitar? No, o melhor era ir a p.
Mas... era longe demais! Seria impossvel! E no poderia perder a hora de entrar no orfanato! Esse ltimo pensamento a fez decidir.
- No vou atrapalh-lo, se aceitar?
- De jeito nenhum!
O rapaz abriu a porta do carro, baixou a capota, e Leonore sentou. No percebeu o sorriso cnico e triunfal que ele tinha nos lbios.
Deu seu endereo e o carro deslizou macio pelo asfalto. Quando j estavam bem afastados, num lugar sem movimento, quase deserto, ele parou o carro no acostamento.
Ela quase entrou em pnico, principalmente quando notou que o rosto bondoso estava agora mais duro, um tanto irnico.
- Voc  Leonore Jameson, no ?
- Isso mesmo. O que  que voc quer, quem  voc?!
- Meu nome  Oliver Savage. O nome no lhe disse nada.
- Como sabe quem eu sou?
- Vi vrias fotografias suas nos jornais. Foi ver sua me, no foi?
Leonore assentou com a cabea, sentindo um n na garganta, as lgrimas aparecendo em seus olhos. Desesperada, sentindo-se s, resolveu contar a ele o que se passara.
Precisava por tudo para fora, antes que ficasse louca!
- Ela me odeia! Disse que a culpa foi minha...
- E no foi?
- No sei... j no sei mais nada! - A angstia e a dor que sentia estavam estampadas em seu rosto. - Ele diz que eu o encorajei, mas no  verdade!
- No fez nada mesmo? Nem um tiquinho? Voc  muito atraente... apesar de usar essas roupas largas. Deve ter notado que seu padrasto a desejava.
Leonore estava estranhamente aliviada em poder falar com um desconhecido sobre o inferno que tinha enfrentado. Era at mais fcil do que com Rachel, to sua amiga.
Talvez porque o tivesse encontrado num momento to difcil, talvez porque no fosse v-lo mais.
Esvaziou a alma, contando tudo o que tinha acontecido desde o instante em que vira Bill Trenchard pela primeira vez.
Ele a interrompia de vez em quando, para perguntar alguma coisa, saber mais detalhes. Mas ela falava como se estivesse sozinha, numa torrente interminvel de palavras.
Contou suas dvidas, todos os seus mais ntimos pensamentos.
Quando terminou, comeou a chorar, primeiro baixinho, depois soluando alto, at sentir-se melhor. O rapaz passou as mos por trs dela, puxando-a para si. Ela encostou
a cabea no peito largo, sentindo-se protegida e aliviada. Como era bom poder contar com algum para ouvir suas mgoas!
- Est melhor agora? - ele perguntou, vendo que ela parava de chorar.
Leonore disse que sim e afastou-se dele.
-  Sabe, voc  um perigo! Assim to bonita, to jovem e infeliz... acho melhor lev-la para casa depressa.
Leonore ficou assustada. Naquele momento tomou conscincia de que tinha aberto seu corao para uma pessoa comple-tamente desconhecida. Fora boba em confiar em algum
to cegamente. Agora ele estava vindo com insinuaes... Apavorada, desceu do carro antes que ele pudesse fazer qualquer movimento para impedi-la. J no estava
longe do orfanato e poderia ir a p.
Foi s na semana seguinte que ficou sabendo que tinha feito uma bobagem maior do que pensava. Rachel lhe entregou um jornal, muito conceituado, que trazia uma grande
reportagem sobre ela, dizendo ser uma entrevista pessoal. O artigo estava assinado por Oliver Savage, e Leonore pde ler tudo que tinha dito a ele. Mas... suas palavras
estavam distorcidas, mostrando-a como uma garota perversa, muito consciente do desejo que provocara no padrasto, e que se comprazia em usar seu corpo e sua juventude
para enlouquec-lo. E ainda terminava dizendo:
"Que garota realmente infantil e ingnua aceita carona de um desconhecido para logo em seguida praticamente se jogar nos braos dele, quase lhe pedindo que faa
amor com ela? Pois foi o que aconteceu comigo e com essa... 'menina'."
Leonore no podia acreditar em seus olhos. Contou para Rachel exatamente o que tinha acontecido.
- Esse homem deve ter a mente muito pervertida para ter agido dessa maneira. Ser que no compreendeu que, pela primeira vez em muito tempo, voc confiou em algum?
Que estava transtornada quando o encontrou? No pense mais nele, Leonore, tente esquecer!
- Mas por que, Rachel? Por que ele agiu assim comigo?
- No sei, talvez porque, sendo um reprter, viu em voc apenas a oportunidade de fazer uma matria sensacional. Foi uma pena que o tivesse encontrado justamente
no dia em que estava mais magoada e vulnervel do que nunca. Se no fosse assim, talvez voc pudesse ter percebido que ele no era bom e sensvel como parecia.
Estar envolvida num caso de violncia sexual era realmente coisa que podia acontecer para algum, pensou Leonore, guardando os recortes dentro da caixa. Mas era
terrivelmente difcil suportar as marcas que ficavam.
Lembrava ainda que, depois do julgamento, muita coisa tinha acontecido. A me morrera logo em seguida quela ltima visita e Bill Trenchard tambm, trs meses depois
de ter sado da priso, num acidente de automvel.
Quanto a ela, tratara de enterrar o passado, e agora que estava conseguindo levar uma vida razoavelmente feliz, Oliver Savage reaparecia, dizendo que queria falar
com ela. Para qu? Para fazer a continuao daquela primeira parte da histria que havia escrito? Para contar ao mundo como estava a vtima de um ataque sexual seis
anos depois? E o que ele esperava encontrar? Uma prostituta, uma mulher sem escrpulos que adorasse seduzir todos os homens?
Leonore soltou uma gargalhada nervosa e estridente, que logo se transformou num soluo. Que decepo ele teria, se soubesse a verdade! Nenhum homem a tocara desde
aquela ocasio. Todos os acontecimentos passados, inclusive aquele encontro com Oliver; a tinham impedido completamente de amar ou confiar em algum. Jamais conseguira
apagar da memria a humilhao que vivera no tribunal, e muito menos o artigo cheio de veneno que Oliver Savage tinha escrito a seu respeito.
No dia seguinte, um sbado, ela acordou melhor. Tinha dormido bem, apesar das recordaes da noite anterior. Retomou sua rotina, arrumando o apartamento e indo fazer
compras no supermercado. A tarde, passou na biblioteca que frequentava, para devolver alguns livros e pegar outros.
Parou para conversar um pouco com a secretria, como sempre fazia. Ela lhe estendeu um volume.
- No quer levar este?  muito bom.
Leonore s viu o nome do autor: Jonathan Graves.
-  No... acho que vou levar outro... - comeou, mas de repente mudou de idia. Talvez devesse ler. De qualquer forma, sentiu um pouco de curiosidade. Sobre o que
escreveria aquele homem cruel?
Chegando em casa, deitou-se no sof e abriu o livro. Jonathan Graves era na verdade um escritor excelente. Tinha um estilo direto e fluente e sabia prender o leitor
at a ltima pgina.
Nesse trabalho, inspirava-se num caso verdadeiro, sobre o qual tinha feito uma reportagem anos antes. A personalidade do heri era complexa, muito bem analisada
e envolvente.
Era isso que Oliver queria dela, pensou. Queria us-la como um material para um novo romance! Queria dissec-la, destru-la e reconstru-la numa fico. Mas no
iria deixar que isso acontecesse, nunca! Jamais permitiria que se aproximasse novamente.
J passava das dez horas quando terminou de ler. Estava na cozinha preparando um ch quando ouviu a campainha tocar. A essa hora? Quem poderia ser?
A porta estava trancada e, sem abri-ta, ela perguntou:
- Quem ?
-  Sou eu, Oliver Savage. Abra a porta, por favor. Quero falar com voc.
- V embora.
- Deixe-me entrar, Leonore. - Fez uma pausa. - Se no abrir, sou capaz de fazer um escndalo.
Leonore compreendeu que ele era bem capaz de cumprir a ameaa. Se o fizesse, os vizinhos poderiam ficar curiosos, e a curiosidade alheia era a coisa que ela mais
temia no momento. Abriu a porta devagar.
- Humm...  um apartamento bem aconchegante. Mora aqui sozinha? - Ele foi entrando.
- Oh, no. Tenho dez homens vivendo aqui comigo. - Ela usou seu tom mais sarcstico. - Claro que moro sozinha. Acha que algum ia querer dividir o apartamento com
uma pessoa to notvel como eu?
- Notvel? Por qu?
- Voc me mostrou ao mundo como uma pantera irresistvel, pronta para destruir as pessoas com meu poder de seduo, ou no se lembra?
Oliver olhou-a muito srio.
- Precisamos conversar, Leonore. Consegui seu endereo no escritrio e pretendia vir v-la amanh. Mas passei por aqui, e vi que a luz ainda estava acesa, por isso
resolvi subir. - Ele sentou no sof, sem que ela o convidasse. Foi ento que viu o livro. - Estava lendo um dos meus livros? Que tal, gostou?
- Fiquei impressionada com a maneira como dissecou o personagem central. Fique certo que no vou permitir que faa a mesma coisa comigo. No vai usar minha vida
como tema de nenhum romance.
- Ento acha que  por isso que a procurei todos esses anos? - Ele estendeu a mo para ela. - Por que no se senta aqui um pouco? Vamos conversar, tenho muito a
dizer a voc!
- No chegue perto de mim!
- No ia tocar em voc. Pelo menos, no como imagina. Ela no tinha nenhuma certeza. Ele j a havia enganado
uma vez. O melhor era mant-lo  distncia e tratar de mand-lo embora na primeira oportunidade.
Num movimento ligeiro, abraou-a e pousou rapidamente os lbios no rosto dela, que se debateu desesperadamente.
-  No sou Bill Trenchard, Leonore. No vou machuc-la. No precisa se apavorar.
Mas ela tremia incrivelmente de susto, medo e indignao.
Ele a soltou e, com gentileza, levou-a at o sof, obrigando-a a sentar. A situao toda era to absurda que ela obedeceu automaticamente. Procurando recuperar o
sangue frio, tentou ser irnica:
- Como v, estraguei sua historinha. Voc esperava que eu me transformasse numa ninfomanaca, sem dvida. Agora j sabe que sou uma mulher frgida.
- No acredito que seja frgida, s sei que est convencida disso. Foi a maneira que encontrou para se defender, no ?
Leonore fechou os olhos. Esse Oliver Savage era mesmo muito esperto. Estava de novo conseguindo mexer com seus sentimentos. Da outra vez, quando aceitara a carona,
ele tinha sido especial, desde o incio, dando-lhe uma sensao estranha, que no conseguia definir direito.
- E acha que no preciso me defender? Faz idia do inferno que passei? Ou nunca pensou em minha situao? Fui rejeitada por minha me, o mundo acreditou que eu era
uma vagabunda me oferecendo aos homens, e voc ainda acha que no preciso me defender? Alguma vez refletiu sobre sua responsabilidade no caso, quando distorceu minhas
palavras em seu artigo?
- No posso lhe devolver os anos perdidos, Leonore. Nem jamais imaginei que tivesse alguma maneira de compens-la, se bem que... - Oliver levantou, passando a mo
pelos cabelos escuros. - Tem alguma bebida em casa? Algo mais forte do que ch ou caf?
- Eu no bebo, mas tenho uma garrafa de xerez.
- Eu devia ter adivinhado e tomado alguma coisa antes de vir para c.
Pelo menos ele mostrava que era humano, que precisava de coragem para enfrentar sua vtima.
- Escute, sr. Savage, acho que no temos nada que conversar. No vou lhe contar de novo meus problemas para que crie depois mais um personagem.
- Quem foi que lhe pediu isso? Ora, por favor. No vim aqui para falar de meus livros ou heronas. Procurei por voc durante os ltimos cinco anos. Coloquei anncios
em jornais, contratei detetives e recorri ao servio social. No consegui nada. Tinha apenas a esperana de que tivesse ficado to zangada comigo que acabasse me
procurando algum dia.
Ela nem respondeu. Deixou somente que a amargura aparecesse em seus olhos.
- Leonore, conheo a verdade.
- Sei disso, porque eu mesma lhe contei quando me ofereceu carona. Mas voc distorceu tudo, talvez para aparecer, fazer uma reportagem sensacional.
- Tenho que admitir que nada poder me desculpar pelo que fiz com voc. Mais tarde, tentei apresentar a histria sob um novo ngulo, mas o caso estava h muito encerrado
e eu s ia criar novos sofrimentos. Seu padrasto j estava morto e eu no teria como provar que ele havia mentido.
Leonore sentiu-se de certa fornia aliviada. J era alguma coisa saber que ele agora acreditava nela, apesar de tarde demais.
- Quando a vi saindo da casa de sua me, naquela tarde, estava na realidade esperando por Bill Trenchard. - Oliver comeou a falar com calma. - No nego que na poca
eu achava que ele tinha razo, e que voc era a culpada. Um primo meu tinha passado por situao semelhante com uma garota menor, que o acionou por t-la violentado.
No entanto, ela  que quis dormir com ele, para depois fazer chantagem e arrancar dinheiro da famlia. Como no conseguiu, abriu o processo. Depois do julgamento,
ele foi condenado e tomou uma dose excessiva de calmantes, talvez deliberadamente. ramos muito amigos e ele morreu por causa disso. Pode entender por que eu queria
crucific-la, Leonore?
Ele falava em voz baixa, olhando para o cho, os ombros cados. Ela sentiu pena dele, apesar de tudo. Oliver continuou:
- Certo ou errado, eu estava com o esprito prevenido contra garotas que iniciam processos de seduo ou estupro. Achava que elas, em geral, queriam tirar afgum
proveito disso.
- Foi isso que pensou de mim?
-  No. Nunca pensei que estivesse atrs de dinheiro. - Oliver fez uma pausa. - Pensei que provavelmente sentia cime de sua me e, devido  sua idade e s mudanas
rpidas em seu corpo, tivesse despertado para a sensualidade e quisesse testar seus poderes e encantos de mulher. Por que no provocar o homem que havia em casa,
que no significava nada para voc?
- No! No foi nada assim!
- Agora sei disso, Leonore, mas no naquela ocasio. Estava insensvel, bloqueado. Quando entrou no meu carro aquele dia, eu s queria ver se descobria pontos contra
voc, no a seu favor. Fui estpido, no soube ou no quis compreend-la...
-  Eu tinha deixado o dinheiro da passagem em casa de mame e no queria voltar l. - Ela se calou. No ia confessar que tinha confiado nele  primeira vista.
Seis anos j tinham se passado desde aqueles acontecimentos. Seu padrasto estava morto, sua me tambm. Eles a tinham feito sofrer mas estavam livres de qualquer
vingana, porque a morte os tinha libertado. Mas esse homem... ele dera o golpe final e estava ali, presente. Era o nico que sobrava. O que adiantava ele pedir
desculpas agora? Esperava que ela o perdoasse? Ah, no! Ela ia faz-lo pagar de alguma maneira, passar vergonha, ser humilhado, sentir na pele o que era ter a opinio
pblica contra ele.
- Leonore, est me ouvindo?
Ela estava noutro mundo, mas voltou a ateno para o que ele dizia.
-  Encontrei seu padrasto depois que saiu da priso. Por acaso, num bar. Ele tinha bebido muito, mas mesmo assim me reconheceu. Devia saber que eu tomara posio
a seu favor, se vangloriando de ter enganado o tribunal. Morreu poucos dias depois, antes que eu tivesse tempo de faz-lo assinar uma declarao completa da verdade,
que eu j tinha preparado.
- No ia adiantar nada, sr. Savage. O mal j estava feito, minha vida jamais tornaria a ser a mesma. - Interrompeu-se. No queria a piedade daquele homem. Como podia
esperar que ela o esquecesse e o perdoasse?
Oliver voltou para junto dela e cobriu suas mos geladas com as dele.
- H alguma coisa que eu possa fazer por voc, para lhe provar que estou sinceramente arrependido? Quero ajud-la, Leonore.
O que ele pensava que era? Algum mgico? Ser que achava que poderia fazer o tempo voltar atrs? Faz-la tornar a ser a adolescente confiante que ele ajudara a destruir?
Como explicar os momentos de angstia que passou ao pensar em sua me lendo o artigo dele e adquirindo a irremedivel certeza da vulgaridade da filha?
O dio que sentia era grande e intenso demais. No queria saber desse homem, muito menos receber ajuda dele! No aceitaria a menor migalha de Oliver, mesmo que estivesse
morrendo de fome.
Ia dizer, de maneira simples e objetiva, o que queria dele: que fosse para o diabo e sumisse de sua vida!
Mas... mas... uma idia comeou a surgir em sua mente. Era o destino que tinha feito com que ela se encontrasse de novo com Oliver Savage. Era a oportunidade de
vingana que aparecia!
Mas o que poderia fazer para se vingar? Como desmerec-lo aos olhos do pblico? Oliver Savage era experiente e vivido, capaz, com toda certeza, de se defender de
qualquer ataque tolo que ela pudesse inventar. Teria que ser muito esperta, teria que descobrir uma maneira! Todas as pessoas tm seu ponto fraco, precisava apenas
descobrir qual era o dele.
Logo pensou em sua carreira. Isso mesmo! Ele a usara para subir na profisso e era a que deveria atingi-lo, obrig-lo a descer do pedestal em que estava. Esta seria
a vingana perfeita!
Leonore sentiu-se exaltada, agitada, a mente fervilhando de planos. Tinha que pensar rpido, achar um jeito de pr em prtica sua idia.
Ele escrevera mentiras a seu respeito, torcera a verdade para conseguir seu objetivo. Queria feri-lo com as mesmas armas. E por que no? Ela tambm escrevia bem,
na escola sempre recebia elogios por suas redaes. Nada a impediria de redigir a respeito dele um artigo ferino, carregado de veneno, como ele havia feito com ela.
S precisava ter um pretexto, encontrar o ponto fraco da vida de Oliver Savage e exp-lo ao mundo, vendendo um artigo arrasador  imprensa sensacionalista.
O importante agora era ter a oportunidade de descobrir seus segredos para armar um escndalo, com provas e tudo, pois de outro modo poderia acabar processada por
calnia.
Como conseguir isso, porm? Precisaria conviver mais com esse homem, saber o que fazia na vida, o que pensava, com quem andava...
- H uma coisa que poderia fazer por mim - ela comeou, devagar. - Eu gostaria de me desenvolver profissionalmente, de me especializar. Se pudesse ter uma experincia
como sua secretria, tenho certeza que isso seria uma recomendao perfeita para conseguir trabalhos mais interessantes no futuro, ganhando melhor e...
- Para que trabalhar para mim? No basta que eu lhe d uma carta de recomendao?
- Ora, no  a mesma coisa. Mas no tem importncia. Se no puder fazer isso, esquea.
Leonore estava encantada consigo mesma. Talvez at devesse fazer um curso de teatro e se tornar atriz. Estava se saindo melhor do que esperava.
-   que normalmente no preciso de secretria, uso um gravador para ditar meus livros e depois eu mesmo os bato  mquina. Alm disso...
- No quer me ver todos os dias,  claro. Uma mulher fria e sem graa como eu...
- J lhe disse que no acredito que seja... - Ele se interrompeu, a testa franzida, como se estivesse lutando consigo mesmo.
Ser que havia se arrependido de ter oferecido ajuda? Teria esperado que ela simplesmente aceitasse suas desculpas e o caso ficasse encerrado?
-  isso mesmo que quer? Trabalhar para mim?
-  No exatamente. Quero trabalhar com voc, para, mais tarde, conseguir um emprego melhor.
- Sei que  boa secretria, Leonore. O sr. Marshall a elogiou muito e, pensando bem, talvez eu precise de uma. Vou comear um novo romance. - Fez uma pausa. - Muito
bem, estamos combinados. Espero que tenha um passaporte vlido.
- Passaporte? Para qu?
- Tenho uma casa de campo em Provena, na Frana, longe de tudo e de todos. E l que me retiro para escrever. Ficaremos os dois sozinhos. Aceita assim mesmo?
Poderia ficar isolada com esse homem cuja presena a perturbava tanto? Como iria suportar o convvio dirio com ele? Mas tinha de dar certo! Justamente por causa
dessa intimidade, teria mais chances de ouvir confidncias, sem que ele suspeitasse de nada. J pensara at no ttulo do artigo, "A vida secreta de um escritor famoso".
Conseguiria a vingana almejada, mesmo que precisasse aguentar aquele monstro por algum tempo!
- Aceito.
- Combinado.
Quando ele saiu, Leonore experimentou uma estranha sensao de vitria. A primeira parte de seu plano j tinha dado certo. Mas aquele prazer tinha o amargo sabor
da vingana.
                                                            CAPTULO IV
Oliver Savage resolveu todos os detalhes prti-__ cos em pouco tempo. Foi falar com o sr. Marshall e conseguiu que Leonore deixasse o cargo com apenas uma semana
de aviso prvio.
Sally estava deslumbrada com a sorte da amiga:
-  Vai mesmo trabalhar para Oliver Savage, isto , para Jonathan Graves? Ah... se eu tivesse essa oportunidade! Iria
para...
- Para a cama com ele? - Leonore interrompeu-a, deixando Sally chocada. Jamais esperaria esse tipo de frase vindo dela, sempre to reservada. - Nosso escritor precisa
de secretria, Sally, no de uma amante.
- Eu sei... Alis, elas devem viver em torno dele. Mas mesmo voc indo s para trabalhar, acho que tem muita sorte. Imagine... ser secretria de um escritor... ir
para a Provena...
Uma semana mais tarde, Leonore foi encontrar Oliver em seu apartamento, num bairro elegante de Londres.
Tocou a campainha e ele veio abrir-lhe a porta enrolado em uma toalha, os cabelos ainda molhados.
- Entre. Desculpe atender voc assim, mas fiquei acordado at tarde e...
- No precisa me explicar nada - ela interrompeu depressa. - O que voc faz  noite no  da minha conta...
- Acha mesmo? Pois daqui para a frente no ser bem assim.  melhor ir se acostumando, porque tambm poderei lhe pedir para trabalhar em horas no muito convencionais.
A inspirao no chega em horrio estritamente comercial, sabia?
Leonore reparou na sala pintada de creme muito claro, o carpete e a cortina acompanhando a cor das paredes, os estofados em tom verde-musgo, tudo muito calmo e relaxante!
Mas apesar de bem decorado e bonito, a atmosfera no era aconchegante. Ela no saberia dizer o que faltava ali. O ambiente mostrava o bom gosto do proprietrio mas
era um tanto impessoal. - Vou ter de ir para Nice um dia antes do combinado. Preciso resolver uns negcios por l, mas no vou demorar. Gostaria que ficasse aqui,
datilografando umas notas que deixei separadas. J avisei aos empregados.
Leonore ouvia as instrues, mas estava muito constrangida. Preferia que Oliver fosse logo se vestir. No conseguia tirar os olhos daquele peito largo e musculoso.
Desde sua adolescncia, no podia se imaginar na intimidade com um homem sem sentir-se mal, mas ele lhe dava uma sensao estranha e indefinida, que no conseguia
entender.
- Por que no pra de me olhar desse jeito? Imagino como se sente, mas lembre-se que no sou seu padrasto.
Leonore baixou os olhos, o rosto vermelho.
- Sei disso.
-  Sabe mesmo? - Ele se aproximou e ela ficou tensa. - Ento prove que sabe. Olhe para mim.
Ela no queria! Sentia-se fraca, frgil diante da masculinidade daquele homem atraente. Mas sua mente trabalhava rpido. Se tinha que ficar junto dele, no podia
demonstrar o quanto era vulnervel. Com esforo, levantou a cabea e encarou-o.
-  Repare bem em meu corpo. Convena-se de que no h nada para ter medo.  somente carne e osso, s isso. - Ele segurou a mo dela e colocou-a sobre seu peito,
- Est sentindo?
Leonore quase ficou sem flego. A pele quente parecia queimar seus dedos. Precisava se afastar, mas ele no a soltava.
- No sou to assustador assim, no  mesmo? - ele falou com voz muito suave.
Ela pensou ter criado razes, porque no conseguia se mover um milmetro da posio em que estava. Oliver chegou ainda mais perto, mantendo-a paralisada com seu
olhar.
- Seu corao est aos pulos, Leonore. Do que tem medo?
- Pensei... achei que ia me beijar.
- Acha isso to horrvel assim?
- Sabe muito bem que no gosto.
- No gosta de verdade, ou apenas no admite que poderia gostar? No  pecado nenhum beijar algum. Pelo contrrio,  uma coisa natural, normal, que todo ser humano
acha bom fazer.
Enquanto falava, Oliver se inclinou e alcanou os lbios dela. Eles estavam rigidamente cerrados, numa tentativa de defesa. Ele ignorou a resistncia dela e deu-lhe
um beijo muito de leve, quase que apenas um suave roar de lbios. A princpio tensa e dura, Leonore foi se relaxando, os lbios se entreabrindo de mansinho. Foi
s quando ele aumentou a presso de sua boca que ela deu um salto para trs, os olhos muito abertos, demonstrando todo o pavor que sentia.
- Por que fez isso? Sabe que no gosto!
- Voc acha que no gosta - ele a corrigiu. - Quanto ao motivo que me levou a isso, vamos dizer que quero compens-la de tudo que causei.
Compensar? O que ele queria dizer com isso? Leonore ainda estava atnita quando ele se desculpou e foi para o quarto se vestir.
Era esquisito! No tinha sentido nojo ou repulsa por Oliver Savage! Gostara do contato de sua pele macia e queimada, seu corpo lhe dera uma sensao muito diferente
da que experimentara com Bill Trenchard. Com Oliver tinha sido... Ela ps os dedos sobre os lbios, tentando reviver as sensaes novas e intensas que havia experimentado.
Chegou em Nice dois dias depois. Oliver foi busc-la no aeroporto parecendo diferente, muito descontrado com as roupas esportivas e leves que usava. J estavam
na primavera e ali fazia bem mais calor do que em Londres. Ela sentiu-se desconfortvel com seu conjunto de l pesada, prprio somente para o clima instvel da Inglaterra.
- Ol, fez boa viagem? - Ele tomou-a pelo brao. - Vamos por aqui.
Saram para a luz brilhante do dia ensolarado e Olver conduziu-a at sua Ferrari, que estava no estacionamento.
- S trouxe essa mala?
- S. Achei que no ia precisar ficar trocando de roupa toda hora, j que sua casa fica num lugar deserto e solitrio. No trouxe nada mais fino, s roupas de trabalho.
- Ento voc tem vestidos sofisticados... Isso quer dizer que voc sai de vez em quando, certo? Ainda bem.
Leonore no respondeu ao comentrio. J tinham entrado no carro, que deslizava suavemente por uma estrada sinuosa. Olhava somente para a paisagem e pensava em sua
futura vingana. Teria de ser calma, fria e controlada durante o tempo que fosse passar ali. Esperaria com pacincia o momento de atacar.
A casa era ainda mais isolada do que tinha imaginado. H muito que deixara de ver qualquer sinal de vida na estrada quando ela surgiu branca, no muito grande, com
a pintura velha e um tanto descascada, por entre as rvores de um pequeno bosque que a rodeava.
- Aqui estamos - disse Oliver.
Uma varanda larga abria-se para o gramado malcuidado, com tufos de mato aparecendo aqui e ali.
- J reparou que as coisas por aqui no esto muito bem tratadas? Quando venho para c concentro-me apenas no trabalho, no costumo fazer jardinagem ou pequenos
consertos.
Entraram pela cozinha, fresca e sombria, o cho de lajotas antigas coberto de poeira. Tambm os armrios e a pia estavam cobertos de p. J devia fazer muito tempo
que Oliver no ia para l.
- Venha me ajudar com essas janelas, Leonore. Esto um pouco emperradas.
- Voc tem gua e luz aqui? - perguntou, um tanto alarmada.
- No  to ruim assim! Temos gua encanada em abundncia e luz tambm, de gerador. Vou lig-lo e logo poderemos usar a geladeira e o resto. Espero que no se incomode
de dividir
comigo as tarefas domsticas. Sei que no faz parte das obrigaes habituais de uma secretria, mas...
- No tem importncia. Fao com prazer, - Talvez fosse at bom, porque com essa intimidade forcada ele acabaria com certeza por contar os detalhes de sua vida que
ela precisava conhecer.
- Muito bom! Venha, vou lhe mostrar a casa toda. Foram para a sala de estar, ampla e confortvel, com jane-
les largos e grandes portas que davam para a varanda. Ali tambm a poeira cobria o cho e os mveis, tudo de muito boa qualidade, em estilo provenal. Num dos cantos
ficava uma lareira enorme e, perto dela, uma mesa rstica, que Leonore deduziu ser o lugar onde Oliver trabalhava. Na parede em frente havia uma estante, at o teto,
literalmente forrada de livros,
-   uma casa gostosa, Oliver. Ou pelo menos, vai ficar, depois que nos livrarmos desse p.
- Que bom que gostou. Agora vamos ver l em cima. E bem maior que embaixo porque construram aproveitando o espao sobre a garagem e o celeiro.
- Parece uma casa de fazenda?
- Antigamente aqui era uma fazenda, por isso a casa  to grande. Tem cinco quartos. - Ele abriu a porta de um deles. - Este  o meu.
Leonore olhou para dentro e viu um quarto confortvel, com uma cama antiga, um armrio grande e uma camiseira.
- Voc pode escolher qualquer um dos outros. Infelizmente no vou poder oferecer um banheiro s para voc, porque s temos esse - disse, indicando uma das portas.
Leonore reparou que no havia fechadura em nenhuma delas.
- Os quartos e o banheiro no tm chaves?
-  Nunca senti necessidade de me trancar, mas voc no precisa se preocupar. No vou espion-la, pode ficar tranquila.
Ela corou ligeiramente com o comentrio sarcstico. Escolheu o quarto mais perto da escada, seguindo a sugesto de Oliver.
-  Este  maior que os outros e o mais distante do meu. Talvez isso a faa sentir-se segura.
- Est bem. Fico com este.
- Estou muito curioso, Leonore. Sabendo de toda averso e medo que tem dos homens no consigo entender por que sugeriu trabalhar para mim. Fez isso realmente s
para progredir em sua carreira?
Ela no quis responder com uma mentira. Para se defender e ganhar tempo, perguntou:
- Por que me aceitou?
- Na verdade, porque me sinto, em parte, culpado pelo que lhe aconteceu.
- Voc distorceu o que eu lhe disse em confiana, Oliver, mas meu padrasto  o verdadeiro culpado - disse obstinadamente, quase sem pensar.
- J lhe disse que sei disso, Leonore. E mais: me sinto mal por ter feito voc perder ainda mais a confiana nas pessoas. Quero ajud-la agora, entende isso?
- J est me ajudando, e muito.
- No falo apenas no sentido profissional. Me refiro a seus problemas de relacionamento. No acha horrvel passar a vida toda trancada dentro de si mesma, fugindo
das pessoas como uma criana assustada?
- No tenho medo de nada!
- No mesmo? Pois tenho certeza de que voc morreria de medo se eu apenas tentasse lev-la para a cama! Reconheo que foi terrvel o que lhe aconteceu, mas j faz
parte do passado. Voc tem que comear aprender a viver, completa e totalmente, e  nisso que quero ajud-la. - Havia um trao de angstia no rosto de Oliver. Seria
possvel? Ser que ele, afinal, tinha mesmo sentimentos, sorria por ela? Leonore pensou, mas logo reagiu.
- E quem vai me ensinar? Voc?... Nada feito! Vou embora daqui agora mesmo. Fui uma idiota em no perceber que havia segundas intenes em sua boa vontade. Imagino
que, muito em breve, publicaria tambm um livro sobre minhas reaes anormais, no ? J posso at antever o ttulo da obra: "De como eu, sozinho, consegui transformar
uma mulher frgida numa chama ardente."
Leonore procurava falar com segurana, mas na verdade estava assustada. Se soubesse antes que era isso o que ele tinha em mente, jamais teria vindo!
- Pelo menos voc admite que pode se tornar uma "chama ardente". timo! E uma pena que eu no tenha inteno nenhuma de escrever sobre voc. Alis, voc parece ter
uma obsesso a esse respeito. Por qu?
- Esqueceu que j fui vtima de suas palavras? - Estava indignada, pronta para brigar.
Para sua surpresa, Oliver mudou de tom, deixando o sarcasmo de lado.
- Acredite em mim agora, Leonore. Quando formos embora, no outono, meu livro estar terminado e voc ser uma mulher viva, capaz de sentir e vibrar como qualquer
outra.
- No sabia que alm de escritor  tambm psiquiatra. E como pretende fazer esse "milagre"?
- No sei... Sinceramente, no sei. Mas vou conseguir. Prometo que vou conseguir. Preciso devolver a voc a alegria de viver e de ser mulher. Afinal, uma vez ajudei
a destru-la. E no  por isso que voc tem tanta raiva de mim?
Oliver saiu do quarto sem esperar a resposta, e rapidamente, como se precisasse encerrar logo aquele assunto, desceu as escadas. Leonore sentou na cama ainda confusa
com as reaes inesperadas dele.
No devia ter vindo! Tinha se deixado levar pelo desejo de vingana, sem medir as consequncias de seu ato. Estava com medo da promessa de Oliver. Como ele pretendia
torn-la uma mulher vibrante? Nem desconfiava, mas uma coisa era certa... ia evitar qualquer aproximao. Pouco depois, ouviu que ele tornava a subir.
-  O gerador j est ligado. Quer me ajudar a guardar as coisas no congelador?
Durante algum tempo trabalharam juntos, em harmonia. Oliver havia pensado em tudo e tinha feito um supermercado na cidade, antes de ir busc-la no aeroporto. Leonore
jamais imaginaria que ele fosse do tipo que gostava de tarefas domsticas, mas estava vendo que era muito prtico e rpido na arrumao da cozinha.
Assim que terminaram, ele falou:
- Agora vou fazer um ch. Depois podemos ir encher a piscina para us-la amanh, o que voc acha?
- Tem piscina aqui?
- Tem. Fica no fim do gramado, perto do pomar. Foi o antigo dono que mandou constru-la. Ele era pintor e gostava de pintar garotas nuas nadando como sereias,
Leonore engoliu em seco, sentindo o estmago ligeiramente embrulhado. Oliver estourou numa gargalhada.
- Pelo amor de Deus! Parece que viu o diabo! Eu estava brincando! As nicas pessoas que usaram a piscina foram o pintor, sua mulher e os quatro filhos. - Olhou-a
pensativo. - Gostaria muito de saber o que se passa em sua cabecinha. Diga-me, Leonore, por que quis vir para c comigo?
- Sabe muito bem por qu.
- Sei apenas o que me contou. Mas algo me diz que no  a verdade ou, pelo menos, no a verdade completa.
Ser que ele desconfiava de alguma coisa? No era possvel! Jamais permitiria que ela viesse se tivesse alguma idia de seus motivos reais. Resolveu ficar quieta.
Ele que pensasse o que quisesse.
-  No quer responder, no ? Est bem. - Oliver olhou para ela, ainda com seu conjunto de inverno. - Voc deve estar com um tremendo calor! Trouxe alguma coisa
mais leve?
- Trouxe uns vestidos de vero.
- E mai?
Leonore balanou a cabea.
- Devia ter adivinhado. Acho que sequer tem um!
- Eu no podia adivinhar que tinha piscina aqui. Por que no me avisou?
Ele ignorou a pergunta e continuou, sorridente:
- Acho melhor no perder tempo dizendo que poder nadar nua, no ? Pois voc no sabe o que perde.  a coisa mais gostosa do mundo, exceto... claro... um beijo
apaixonado.
Ela sabia que estava muito vermelha. Sentiu as faces em fogo, o corao batendo acelerado.
- No devia falar assim comigo.
- No? Eu perturbo voc?
- No me perturba, Oliver, me revolta! Talvez as mulheres com quem convive gostem desse tipo de conversa vulgar, mas eu no.
Ele estava de bom humor e no queria comear uma discusso. Mudou rpido de assunto.
- Vamos cuidar da vida, mocinha. Precisamos tornar essa casa habitvel. Aqui no temos empregados para fazer a arrumao nem a comida. Portanto, j que est disposta
a me ajudar, o que prefere? Arrumar as camas ou tirar o p?
- Fao as camas.
Subiram e Oliver lhe mostrou onde guardava os lenis. Leonore foi primeiro para o quarto dele. Tudo que estava acontecendo com ela era to estranho! Sempre odiara
os homens, nunca suportaria conviver com um. No entanto, sentia-se bem com Oliver. Apreciava a companhia dele, gostava da sua risada espontnea e de seu jeito descontrado
de viver. Ainda bem! Era mais fcil estar ali sem odi-lo, apesar de pretender feri-lo mais tarde.
Deixou a cama dele pronta e foi arrumar a sua. Desceu e encontrou Oliver na cozinha, preparando o jantar. Deram boas risadas enquanto ela o ajudava. Leonore teve
oportunidade de observ-lo cora calma. Ele no tinha mudado quase nada nesses seis anos. Suas feies estavam mais definidas, talvez um pouco mais duras, mas isso
era tudo.
- Est cansada?
- Um pouquinho, mas  melhor deixarmos a loua lavada. Depois quero ainda desfazer minha mala.
-  verdade, ainda est no carro. Vou peg-la. De qualquer modo, tire hoje somente o que precisa, espere para guardar o resto amanh. No vamos comear a trabalhar
imediatamente. Sempre que chego aqui passo uns dias me acostumando a esse ritmo de vida. - Aconselhou-a a fazer o mesmo.
- Nem vai ser preciso. J estou me sentindo bastante em casa.
- Mesmo com essa roupa pesada, prpria para o rtico? Por que usa esse tipo de roupa? Parece mais uma muralha para manter seus admiradores longe. E o cabelo, puxado
para trs desse jeito? No pode solt-lo, Leonore?
Oliver era insuportvel. Via demais, compreendia demais, dava a impresso de conhec-la por dentro.
- Gosto de deix-lo sempre arrumado, s isso. - Ps a mo no coque para se certificar de que estava bem preso. Ainda tinha muito vivo na memria sua fotografia com
os cabelos soltos, diante dos jurados. - Fico melhor com ele assim.
- Acha mesmo? - Oliver olhou-a com certa amargura. - Escute,  melhor voc ir se deitar e descansar para amanh. Eu deixo sua mala l em cima e depois cuido da loua.
Se quiser tomar um banho, a gua j est quente e prometo que no ser perturbada.
Sabia que Oliver no ia molest-la. E por que faria isso? Mesmo que no fosse por respeito, teria que ach-la atraente para querer faz-lo, e era evidente que no
via nela graa nenhuma. Sem saber bem por que, sentiu uma dorzinha no fundo da alma. Apressou-se em subir.
Tomou um banho gostoso e demorado e vestiu a camisola mais fresca que tinha. S quando deitou percebeu o quanto estava cansada. Em menos de um minuto dormia a sono
solto.
                                                            CAPTULO V
Acordou com o sol entrando pela janela e levou alguns segundos para se conscientizar de onde estava. Depois, olhou sobressaltada para o relgio, sentindo que tinha
dormido demais.
Ainda bem que Oliver dissera que no iam comear a trabalhar logo! No queria se atrasar no primeiro dia. De qualquer modo, precisava apressar-se, ainda havia muita
coisa para fazer na casa.
A noite anterior tinha sido to agradvel! Como era fcil conviver com Oliver. Ele era interessante, descontrado... e, bem l no fundo, tinha que reconhecer que
a perturbava. Era isso que mais a confundia! Ela no tinha horror a homens?
Levantou-se. No podia deixar que sua imaginao trabalhasse demais. Estava ali com um objetivo e ia concentrar todas as suas foras nesse sentido.
Procurou pela mala para pegar o robe. Mas onde estava ela? Tinha certeza de t-la deixado ao p da cama, antes de deitar. Como podia ter desaparecido?
- Perdeu alguma coisa? - Oliver perguntou da porta. Leonore voltou-se e o viu encostado ao batente, com uma
xcara de ch fumegante na mo. Evitou olhar para seu peito moreno, que aparecia sob a camisa aberta quase at a cintura.
- No consigo achar minha mala. Eu a pus no p da cama e...
- E eu a levei embora depois que voc dormiu. Quer saber por qu? - Oliver esperou que ela sentasse para lhe entregar a bebida. - Porque voc se veste como uma mulher
de sessenta
anos ou mais. Esconde seu corpo sob essas roupas deselegantes. J lhe disse porque a trouxe para c, portanto...
- J sei, no precisa repetir que quer me transformar numa mulher mais feminina. - Leonore estava zangada. Tomou um gole do ch para se acalmar.
Oliver observava sua figura vestida com uma camisola longa e grossa, de mangas compridas e fechada no pescoo.
- E o que pretende exatamente, escondendo minha mala? Que eu fique de camisola enquanto estiver aqui?
- De jeito nenhum. Ela ainda  pior do que suas roupas de solteirona.
- Ento...
- Ento voc vai usar as roupas que comprei em Nice.
- O qu?!
- Isso mesmo, no precisa ficar to surpresa - disse animadamente. - No quer ver o que trouxe?
Ela estava de queixo cado, confusa demais para reagir. O que Oliver pretendia? O que esperava dela, afinal? Num ponto ele estava certo. Realmente usava aquelas
roupas de senhora para se enfeiar, para desencorajar qualquer aproximao do sexo oposto. E o cabelo? Cus! Aquele coque a deixava com ares de inspetora nazista!
Passou a mo pela cabea alisando sem querer os cabelos macios que agora caam soltos sobre seus ombros.
- Deixe-os ficar assim. - Oliver aproximou-se dela, prendendo-lhe as mos. Seus olhos admiravam o rosto bonito e delicado dela, o corpo frgil e feminino, os seios
que se delineavam muito sensualmente, apesar da camisola exagerada-mente discreta.
Leonore corou sentindo aquele olhar que tinha o poder de transpor as suas barreiras de defesa, penetrando na sua intimidade. Nunca tinha permitido que um homem se
aproximasse dela assim. A sensualidade dos gestos de Oliver a despertavam para um mundo que ela considerava proibido. Um mundo que lhe causava medo, muito medo.
Comeou a entrar era pnico.
- Leonore! - Ele percebeu que ela ia entrar em crise. - Leonore, olhe para mim! Por favor, no h motivos para voc ficar assim.
- No quero suas roupas, no quero nada! - Ela comeou a gritar quase fora de si.
- Quer sim e vai us-las, nem que eu tenha que obrig-la! Voc  mulher. No sente nem um pouco de prazer com isso? Nunca pensou em como pode ser bom ter um homem
que a olhe com admirao, com amor?
- Com desdm,  isso que deveria dizer! Sei muito bem como . Bem demais, sr. Oliver Savage!
- Nem todos os homens so iguais a seu padrasto, Leonore. Deus, voc precisa entender isso. Por que no d o primeiro passo para sair dessa priso sem sentido?
- No estou presa...
- Est sim. Presa pelo medo, por preconceitos, presa principalmente por uma mrbida acomodao. No me olhe assim, como se eu estivesse falando algum absurdo. Essa
sua obsesso pelo isolamento significa morte, sim. Ou voc pensa que est vencendo, se proibindo de amar e de se realizar como mulher?
-  Pelo menos esse jeito que eu escolhi para viver  mais seguro. Nem todos escolhem o mesmo caminho de vida! E se voc  to aberto, deveria admitir isso.
- Como pode preferir aprisionar-se para sempre, Leonore? No quer respirar livremente, adquirir experincia, aproveitar tudo que a vida tem para oferecer? Talvez
tenha que sacrificar um pouco de sua segurana, mas  muito melhor do que viver fugindo. - Fez uma pausa. - Acabe de tomar seu ch e venha ver o que comprei para
voc.
Ela sentia que Oliver a estava tratando como criana, dando um argumento lgico para cada objeo que levantava. Os motivos dele seriam realmente to nobres e elevados,
como queria faz-la acreditar? Estaria mesmo apenas preocupado com sua felicidade, ou teria outras razes para aceit-la como secretria?
- Seja sincero, Oliver. Desde que me procurou seu objetivo era apenas me transformar na mulher que acha que eu deveria ter sido, seno fosse aquele episdio infeliz?
- No. Para dizer a verdade nem imaginava que voc tivesse sofrido tanto. No incio, s pensava em me desculpar, mas depois que a vi... Se acha que tenho parte da
culpa pelo que lhe aconteceu, quero pagar minha dvida.
- E se eu no quiser aceitar isso?
- Mas tenho certeza que quer. Precisamos somente chegar a um acordo sobre como superar os problemas. Eu tenho meus mtodos e estou tentando...
Foi at o armrio e tirou de l vrios pacotes, pondo-os sobre a cama.
- Que tal fazer de conta que  Natal? Abra os presentes, vamos! No  possvel que no goste disso. - Ele a olhava cheio de expectativa. - Quando eu estava fazendo
as compras, no sabia se devia escolher as coisas para a garota que ainda  ou para a mulher em que vai se tornar.
- E por qual das duas se decidiu? - Voc mesma vai descobrir.
- No vou usar nada disso!
- No comeo, talvez voc se sinta um tanto esquisita, mas vai us-las, fao questo. J se apegou ao passado por muito tempo. Agora chega! Ele est morto e enterrado.
- Meu Deus! Voc no entende! No vou conseguir esquecer tudo o que sofri. Nunca! Cada vez que um homem me olha ou me toca, acho...
- Acha que ele  um crpula como seu padrasto? - Isso mesmo.
- Mas as pessoas no so iguais, Leonore. Est certo que eu tambm um dia agi mal com voc, mas estou tentando lhe mostrar que no sou to ruim como pensa. Talvez
voc v continuar me odiando como odiava a Bill Trenchard, porque estou ao seu alcance e ele no. Mas deixe-me ajud-la assim mesmo, no precisa se forar.
Oliver estaria certo? Talvez estivesse cultivando seu desejo de vingana contra ele porque no poderia atingir o verdadeiro objeto de seu dio: Bill.  claro que
Oliver tambm a fizera sofrer demais, mas agora...
-  Como , Leonore, no vai abrir esses pacotes? Ser que vou ter de arranc-la da cama e obrig-la a vestir o que lhe trouxe?
Ela comeou a acreditar na sinceridade de Oliver, mas ficou profundamente irritada com o jeito autoritrio dele decidir as coisas. Quase lhe respondeu mal. As palavras
estavam na ponta da lngua quando a expresso de ansiedade no rosto dele se derreteu. Acabou abrindo as caixas.
Uma delas tinha um biquini moderno, bem pequenininho, cor de ouro velho. Ela jamais teria a coragem de vestir aquilo! Oliver se divertia vendo a cara escandalizada
que ela fazia.
- Esse biquini  at grande demais, de acordo com os padres de Nice. A dona da loja me aconselhou a comprar s a parte de baixo. Embora seja partidrio de que tudo
que  belo deve ser mostrado, achei que no devia exagerar, por enquanto...
Leonore nem olhou para ele. Estava embaraada demais e voltou sua ateno para os outros pacotes. Encontrou dois jeans e vrias camisetas, um conjunto de saia e
blazer de linho cru com uma camisa de seda verde-gua, um minivestido de algodo, abotoado nas costas, uma sandlia baixa e outra alta, muito elegante, um tnis
e alguns cintos e acessrios.
Faltava abrir uma caixa pequena. Desembrulhou-a intrigada, e encontrou quatro conjuntos de calcinha e suti, brancos, de cetim e renda.
- Espero que tenha gostado da lingerie. No escolhi nada muito ousado, concorda? Para ser sincero, pedi ajuda para a vendedora. E ento, gostou?
- No vou usar nada disso! Prefiro morrer a vestir essas coisas!
- Deixe de ser boba, menina! Se no gosta das roupas, tente encar-las como um remdio amargo, ruim de tomar, mas muito necessrio. Voc ainda  uma menina. Esquea
o tempo que perdeu at hoje, mas no desperdice o agora e o amanh.
Oliver falava com tanta segurana que Leonore chegou a achar que ele tinha razo. Mas, ao mesmo tempo, sentia-se incomodada por v-lo mandando em sua vida. Tinha
suas prprias idias e no queria mudar! Em todo o caso, faria o que ele desejava. Fingiria satisfaz-lo para poder se vingar melhor depois!
- Vista-se e deixe o cabelo solto. - Oliver levantou e pegou os grampos que ela havia deixado na penteadeira. - Seja corajosa e d o primeiro passo para a liberdade.
Vai conseguir, tenho certeza.
Depois que Oliver saiu ela ainda ficou sentada, olhando para as roupas novas. No saberia como se comportar dentro delas. Mas... que diferena faria, se estavam
s os dois ali? Se ficasse ridcula, no tinha importncia. No ligava a mnima para a opinio de Oliver.
Tomou banho e colocou um dos sutis. Era impressionante como tinha acertado seu tamanho! Vestiu a calcinha, mnima, e, apesar de estar sozinha, sentiu-se um pouco
constrangida. Mas estava exuberante, tinha de admitir. Rapidamente colocou uma das calas e escolheu a camiseta mais larga. Escovou o cabelo, e saiu do quarto, muito
timidamente.
- Voc est tima - Oliver comentou quando ela desceu. - "Agora" parece uma garota de vinte e um anos. - Ele aproximou-se, observando atentamente seu rosto. - Tem
a pele sedosa, clios compridos e espessos, sardas travessas...  uma moa muito bonita, Leonore.
- No precisa me fazer elogios, principalmente porque ambos sabemos que no est dizendo a verdade.
- No? E quem  voc para julgar? O que sabe sobre beleza ou feminilidade? No fundo, no fundo, acho que voc sabe julgar suas qualidades, embora no admita. Mas
j deixou algum homem gostar de voc de verdade?
Aquilo era insuportvel! Ela queria correr, fugir dali.
- Responda, Leonore! - Oliver apertou os pulsos dela, percebendo que ela procurava escapar.
- Voc sabe o que Bill me fez sentir. No quero ser desejada, odeio que sintam atrao por meu corpo!
- Mas voc  desejvel. E tem cabelos maravilhosos...
Ela comeou a gritar, pressionando os ouvidos para no escutar aquelas palavras. Lgrimas molhavam seu rosto, enquanto mergulhava num turbilho de emoes contraditrias,
impo-
tente para lutar contra a angstia que parecia querer explodir dentro dela.
Oliver abraou-a, apertando-a contra o peito. Tentou consol-la, murmurando palavras carinhosas, passando a mo nos longos cabelos brilhantes.
- No h nada de vergonhoso no fato de ser atraente, Leonore. Seu padrasto  que era um homem mentalmente doente, um insuportvel.
-  Ele disse que eu o provoquei e tentei. At minha me acreditou! Voc tambm, e todo mundo!
-  E no fim tambm acabou acreditando, no ? - Muito delicadamente, ele levantou o rosto dela, obrigando-a a fit-lo nos olhos.
- No... sim... isto , eu... - Afastou-se, impressionada com a confuso de sentimentos que ele havia provocado nela. Estava trmula, sentia as pernas fracas e a
vista turva. Oliver percebeu seu mal-estar e a fez sentar na poltrona.
- Voc teve uma experincia traumtica, Leonore, mas vai superar isso. Tenha calma e confie em mim.
Podia confiar nele? Deveria? Nem sabia ao certo se ele era uma bno ou uma ameaa em sua vida. No sabia mais nada, at mesmo se ainda queria se vingar.
- Tenho que fazer umas leituras antes de comear o livro. Por que no vai se divertir um pouco, Leonore, dar umas voltas para se descontrair e conhecer o lugar?
Comearemos nosso trabalho amanh.
- Por que pensa que vou me descontrair? Acha que s porque estou usando roupas diferentes vou me transformar numa outra pessoa?
- No creio nisso, mas acho que voc sim. No esperava transformar-se para sempre, usando aquelas roupas de matrona?
Por que ele tinha o raciocnio to rpido e certeiro? Ela sempre perdia terreno nas discusses que tinham!
- Se ajudar, pense que foi o destino que nos reuniu, para nos dar a ambos uma chance de escapar ao passado. Voc continua carregando uma carga pesada, de dor e culpa,
quando
no h necessidade disso. E eu tambm quero me redimir do que fiz.
Ela deu uma risada sarcstica.
-  to difcil assim confiar em mim? Acha que no tenho sentimentos? Que arrasei uma pessoa inocente sem sequer me arrepender sinceramente, depois? No sou um monstro,
Leo-
nore!
Agora ele tentava se passar por vtima! Queria que ela sentisse pena dele! Que mtodos mais iria usar, indagou nervosa?
-  Leonore, sabe o que seria realmente bom? Se a gente conseguisse falar de novo, sobre tudo o que aconteceu, reviver tudo, mesmo que doesse. Tenho certeza que ns
conseguiramos superar as coisas mais facilmente.
- Acha que isso vai livr-lo do sentimento de culpa?
- Quantas vezes preciso repetir que tenho remorso? No fui ,.a causa principal de seus sofrimentos, mas contribui com uma
parcela importante. Acha que  tarde demais para tentar compens-la pelo erro que cometi?
Como iria confiar nele uma segunda vez? E se ele a estivesse usando como objeto de suas observaes? No conseguia livrar-se da obsesso de que ele pretendia transform-la
em herona de um romance. Como gostaria de encontrar um artigo dele que fosse mentiroso, que provasse que ele no era um reprter honesto! A sim, poderia arruin-lo
definitivamente em sua carreira. Gostaria de v-lo amargurado, como ela.
Leonore era um poo de contradies. Ora gostava dele, ora o odiava. Queria vingar-se num momento, em outro no sabia mais se sua vingana tinha sentido. Na noite
anterior sentira-se quase frustrada porque ele no a achava atraente, e h poucos minutos quase morrera de desespero por ouvi-lo dizer que ela era bonita e desejvel.
- Tente confiar em mim, Leonore - ele continuava falando. - Para seu prprio bem. Sei que no  fcil, mas precisa tentar.
- Quer mesmo me ajudar?
- Naturalmente. Algum tem que penetrar nessa muralha que construiu ao seu redor e que a impede de crescer. Voc s  uma mulher adulta aos olhos do mundo, porque,
por dentro, continua sendo a mesma menina assustada de seis anos atrs.
Leonore no tirava os olhos do rosto dele. No era possvel! Teria mesmo percebido angstia em sua expresso? Estaria realmente sendo sincero? No! No ia acreditar
nele de novo!
Sua razo lhe dizia para tomar cuidado com Oliver, para desconfiar sempre, ao passo que seu corao queria entregar-se nas mos dele. Que dvida! Que caminho devia
seguir?
- No sei... mas acho que vou tentar.
- No vai se arrepender - ele prometeu. Deu um beijo no rosto dela e depois muito de leve tocou-lhe os lbios. - Vou ficar lendo na sala, se quiser falar comigo,
me procure.
- Vou dar aquele passeio que voc sugeriu. J ia saindo quando ele tornou a cham-la.
- Ficou muito bonita com essa roupa - disse, piscando o olho. - E tome cuidado com o sol.
Ela sorriu e continuou seu caminho. Andou pelo gramado na direo do pomar, e chegou na piscina, que estava quase cheia. Era grande, de azulejos azuis, protegida
do vento por uma cerca viva, toda florida. Ao lado ficavam os vestirios e uma churrasqueira.
Ao voltar para casa, tornou a cruzar o gramado, prestando ateno nos tufos de mato. Ajoelhou-se e comeou a arrancar alguns, distrada, sem pensar no tempo. De
vez em quando olhava para a porta que tinha limpado, via que estava ficando bonita e continuava, com prazer, sentindo-se til. Com um pouquinho de trato e carinho,
aquela casa poderia ficar perfeita.
Quando cansou daquela posio, ergueu-se e foi para casa. O silncio era completo, a no ser pelo ligeiro rudo das folhas do livro que Oliver virava. No quis perturb-lo
e subiu para
o seu quarto.
Assim que entrou, viu sua imagem refletida no espelho da penteadeira, o rosto corado pelo exerccio, os olhos brilhantes, a boca entreaberta numa expresso... sensual?
Seria possvel? Aquela moa bonita, de corpo esguio e cheio de curvas, era ela
mesma?
Virou-se de lado e depois de frente. Oliver tivera muito bom gosto! Aquelas roupas a deixavam realmente com uma aparncia jovial e alegre. Estaria mudando tambm
por dentro?
Pegou um bloco de anotaes, foi para junto da janela e comeou a escrever. Comeou descrevendo a volta de Oliver em sua vida, colocando no papel tudo o que sentia,
seu desejo de vingana, a transformao de sua aparncia, as emoes que a dominavam.
Parou depois de algum tempo e ficou pensando. Era estranho, mas sentia-se muito mais  vontade com aquelas roupas de garota moderna do que com os vestidos antiquados
que vivia usando nos ltimos anos. No entanto... no tinha sido Oliver quem lhe dera aquela aparncia? Alis, no era a primeira vez que ele direcionava seu comportamento.
J no a fizera ficar zangada, alegre, triste, emocionada? Cheia de susto e pavor? Por que ele agia assim?
Ainda no tinha certeza das intenes dele, apesar de tudo o que ele dizia. Mas estava inclinada a acreditar que o que o interessava mesmo era a "experincia" que
estava realizando s custas dela. Em todo o caso, por ora, a simples desconfiana era suficiente para que se decidisse: continuaria com seus planos de vingana!
Guardou o caderno e desceu para preparar o almoo. Oliver deve ter sentido o cheiro gostoso da comida pois um pouco mais tarde apareceu na cozinha.
- Humm... que delcia! Estou morrendo de fome.
- Ento pode pr a mesa. J est quase pronto. Durante a refeio, Leonore sugeriu:
- Voc tem tanto espao aqui, por que no faz uma horta? Poderamos comer verdura fresca.
- Tem uma perto da cozinha, mas meu jardineiro se aposentou e era ele quem cuidava de tudo. Por isso o jardim est abandonado. Mas duvido que ainda haja alguma coisa
por l.
- Vou ver amanh. Posso ajeitar um pouco o jardim enquanto estiver aqui.
- Gosta de jardinagem?
- Pode me servir como terapia - ela respondeu, evasiva.
-  um meio de se manter afastada de mim, no ? - Ele sorriu com ar compreensivo. - Bem, faa como quiser, mas lembre-se que sua primeira tarefa aqui  como secretria.
E no se esquea de tomar cuidado com o sol. Aconselho-a a no ficar muito exposta at que tenha se queimado um pouco. J ficou muito tempo l fora hoje.
- Ficou me espiando?
- E isso  crime? Fiquei olhando, sim. Parecia uma meni-ninha tentando fazer um servio de gente grande. - Ele levantou e foi para junto dela. - Da prxima vez que
for ficar l fora, use um chapu. - Oliver segurou alguns fios do cabelo vermelho entre os dedos. Embora seu cabelo seja lindo, no  proteo adequada contra o
sol.
Leonore tremeu ao sentir o contato perturbador. Oliver abaixou-se para aspirar o seu perfume.
- Hoje voc est uma mistura de sol, ar fresco e liberdade.  o perfume mais tentador que existe!
Ela sentia-se embriagada pelas palavras de Oliver. Estaria se acostumando a t-lo to perto? No ficou embaraada nem quis fugir. Isso seria bom sinal?... Ou estava
se deixando envolver em mais apuros?
De repente, ele se endireitou e mudou de assunto.
- Ainda tenho muito o que fazer. Vou voltar para o meu trabalho. Posso contar com voc para preparar o jantar? Se terminar essa parte de pesquisas hoje, poderemos
pensar no livro amanh.
- Tudo bem. Pode ficar tranquilo.
Leonore voltou para o quarto e comeou a ler. Inconscientemente, passava os dedos pelos cabelos, imaginando se eles eram realmente to bonitos como Oliver tinha
dito. Alisou os cabelos, sentindo a sua textura, a maciez. Era estranho: parecia que estava fazendo um reconhecimento de si mesma! Ser que tinha se ignorado tanto
a ponto de perder a prpria identidade?
Num impulso, foi pegar seu caderno e releu o que tinha escrito de manh. Descobriu que, apesar do dio que sentia por Oliver, suas palavras no demonstravam medo
ou apreenso por ter sido tocada por ele. Talvez por saber que ele conhecia seu passado, ou porque com ele no precisava fingir. O fato  que no sentira uma necessidade
real de criar uma barreira entre os dois.
Ela sempre considerara sexo uma coisa suja e insuportvel. Sabia que ainda pensava assim. No entanto... essa reao de averso e desprezo no transparecia no que
havia escrito. No fora nada desagradvel sentir a proximidade de Oliver. Pelo contrrio, gostou dela.
Jogou o caderno para o lado. Estava confusa demais para pensar sobre o assunto. O melhor seria descer e cuidar de coisas mais prticas. Foi para a cozinha e, j
que tinha tempo, comeou a fazer uma carne assada. Gostava de cozinhar e isso a manteria ocupada, com a mente longe de Oliver.
Procurou na geladeira e encontrou tudo o que precisava para o tempero. Pouco depois de ter posto a carne no forno, um cheiro gostoso se espalhou pela cozinha.
No demorou muito para que ele aparecesse.
- Preciso de uns minutos de folga e no resisti ao cheiro delicioso que vinha daqui. E o nosso jantar?
- . Estou fazendo carne assada e depois vou preparar uma salada. Est bem assim?
- Excelente. Quanto tempo ainda demora para ficar pronto?
- Uma hora, mais ou menos,
-  timo. Ento podemos aproveitar esse tempo para dar um mergulho.
- No sei nadar e, alm disso, ainda tenho de fazer a salada. -Ajudo voc depois. Venha, no fique inventando desculpas.
- No  desculpa.
- J esqueceu que veio para c como minha secretria? No discuta mais,  seu patro que est lhe dizendo para ir at a piscina e voc deve obedecer. Espero voc
l em dez minutos. - E saiu da cozinha, sem esperar resposta. Antes de subir, porm, ainda gritou: - Agora voc j tem um biquini.
Leonore esperou um pouco. No queria encontr-lo de novo l em cima. Foi para o quarto s quando ouviu que ele fechava a porta do seu. Ficou cora receio que viesse
falar com ela. Aquela casa sem fechaduras a deixava aflita. E se ele resolvesse entrar de repente? S relaxou quando ouviu seus passos descendo a escada de novo.
Ento foi pegar o biquini.
Tirou a roupa e se vestiu. Ficou perplexa ao se olhar no espelho. Aquela era ela mesma? Nem sabia que tinha um corpo assim bonito, com uma cintura to fina, os seios
arredondados e as pernas longas e bem feitas! H quanto tempo no se via assim de corpo inteiro!... no teria coragem de dar um passo vestida daquele jeito! Vestida?
No deveria dizer despida? O suti do biquini no passava de um pequeno tringulo e a tanga... deixava a metade de seu bumbum de fora! Alm disso, estava branca
como leite, pois j nem se lembrava quando tinha tomado sol pela ltima vez. Ainda deveria ser criana. Era melhor no ir para a piscina!
Mas... e se Oliver a viesse buscar? No seria muito pior se ele a encontrasse em seu quarto com to pouca roupa? Dos males o menor, decidiu. "Vou para a piscina
e evito que ele venha at aqui."
Leonore pegou a sada que acompanhava o biquini. Era curta mas podia ser fechada com um cinto, como um quimono. Cobriu-se o melhor que pde, e deu uma ltima olhada
no espelho. O que Oliver acharia dela de biquini? No mesmo instante, irritou-se com o pensamento. Por que se perguntava isso? A opinio dele no devia ter importncia.
Que diferena faria se ele a achasse feia ou bonita, visto que ela o odiava?
Oliver estava estirado na borda da piscina quando ela chegou. Usava uma sunga preta muito pequena e Leonore corou ao ver as pernas longas e musculosas. Ao ouvir
que ela se aproximava, Oliver, que estava deitado de bruos, virou-se e colocou a mo sobre os olhos, protegendo a vista do sol forte.
- Quase voltei para busc-la. - Levantou-se rapidamente. - Venha sentar aqui - disse, indicando duas espreguiadeiras que estavam colocadas lado a lado e acomodando-se
numa delas. - Trouxe algum bronzeador? Precisa tomar cuidado, sua pele  muito delicada.
Ela sentou-se muito sem jeito. No conseguia esquecer que estava vestindo um... nada!
-  Eu... bem, eu... - Como podia explicar-lhe que nem sabia se sua pele era ou no resistente ao sol? Nunca tinha ido  praia ou  piscinas!
- At eu no estou to queimado que possa facilitar. Pode passar o bronzeador em minhas costas? - Oliver entregou-lhe o vidro, abaixou completamente o encosto da
espreguiadeira e estendeu-se novamente de bruos.
Leonore sentiu alvio por ele estar de costas. Que bom! No precisava ver seus olhos maliciosos reparando em cada movimento que fazia.
Comeou a passar a loo, sentindo os ombros largos e atlticos. Com o rabo dos olhos, percorria aquele corpo, cheia de curiosidade, impressionada com suas formas
atlticas. Mas mal conseguia encostar nele, apenas a pontinha de seus dedos o tocavam, timidamente.
-  O que h, Leonore? Preciso lembr-la de novo que no sou nenhum bicho-papo? No estou to desesperado que esteja a ponto de me atirar em voc a cada vez que
me toca!
Ele se virou e ficou observando a reao dela. Leonore estava embaraada. Por que Oliver sempre sabia exatamente tudo o que ela sentia? Foi ento que reparou que
sua sada tinha se aberto. Com dedos trmulos, procurou fech-la.
- E por que no tira isso? Ser que vou ter que ajud-la? - disse, sorrindo. Depois, apoiou a cabea nos braos cruzados e esperou.
Leonore, a essa altura, j conhecia a capacidade de insistncia dele. Era melhor tirar a sada de uma vez, antes que ele tomasse mesmo a iniciativa. De olhos baixos,
fez o que ele sugeria.
-  Ento essa  a tcnica que d certo! Quando se quiser que uma garota tire a roupa,  s sugerir uma ajuda. Quanto mais se vive mais se aprende! - Oliver divertia-se
com o embarao dela. Seus dentes muito brancos formavam um contraste bonito no rosto queimado.
Leonore ficou furiosa. Ento ele achava graa? Sentia uma vontade louca de fugir dali, de se fechar no quarto, de viver solitria como sempre tinha feito. No suportava
aquele olhar malicioso, que examinava cada centmetro de seu corpo. Estava morta de vergonha! Oliver era insuportvel e no ligava a mnima para o que ela sentia.
- Voc  muito bonita. Est um pouco branca,  claro, mas tem o corpo bonito e saudvel de uma garota da sua idade. Agora quer acabar de passar o bronzeador em mim,
por favor?
Ela obedeceu, entre desapontada e aliviada com o que ouvira. Ele a desarmara mais uma vez! Fizera-lhe um elogio carinhoso e paternal, quando ela temia que viesse
com insinuaes sensuais. No entanto... talvez em seu ntimo tivesse gostado de ser tratada como mulher, e no apenas como uma garota sadia!
Distrada com seus pensamentos, intrigada com as emoes contraditrias que a dominavam, continuava passando o leo nas costas de Oliver. Sem saber como ou exatamente
em que momento tinha acontecido, percebeu de repente que j h algum tempo estava sentindo um suave prazer em deslizar as mos sobre a pele quente e macia dele.
Podia sentir-lhe a coluna, os msculos fortes...
- Est passando bronzeador em mim ou estudando minha anatomia? - Oliver se virou, a malcia estampada em seus olhos.
- Eu...
- s vezes voc me acusa de us-la para experincias. No est fazendo a mesma coisa, agora?
- Como assim?
-  Se ainda no percebeu, voc est me acariciando! E de um modo muito sensual. Assim vai me pr idias na cabea!
Leonore desejou que a terra se abrisse para que pudesse desaparecer para sempre! Ela estava fazendo isso?!
- No acredita em mim? Talvez seja melhor eu lhe mostrar.
Oliver a pegou pelo brao e a fez deitar-se junto dele, segurando-a com delicadeza mas firmemente. Depois apoiou-se no cotovelo para olh-la melhor, fixando com
intensidade seu rosto assustado que parecia muito frgil.
- No... Oliver, no!... Por favor...
-  Voc gosta muito de dizer "no". Nem sabe o que est recusando! - Ele estava muito calmo, a voz suave e convincente. - No vou machuc-la. Apenas fique quietinha.
No sabia o que esperar. Oliver permanecia tranquilo, mas ela percebia algo mais naqueles olhos to expressivos. No saberia dizer o que era, mas estava ali, podia
senti-lo. Alguma coisa queria explodir, por trs da superfcie calma de seu rosto.
- Fique quietinha - ele repetiu.
                                                                CAPITULO VI
Leonore estava amedrontada demais para fazer loutra coisa seno seguir as ordens dele. Oliver comeou  passar a loo primeiro em seu pescoo fino e delicado, depois
nos ombros arredondados, repetindo muitas vezes cada movimento, at sentir que o corpo dela se descontraa.
Ela chegou a fechar os olhos. Tinha se virado de costas e estava deliciosamente quente, sonolenta, uma sensao de paz invadindo seu corao, A voz dele veio interromper
aquele momento. Abriu os olhos e encontrou ainda a mesma expresso indecifrvel no rosto dele.
- Lembre do que sentiu, Leonore, e agora sinta a diferena. - Sem mais demora ele desceu a mo pelas costas dela, acariciando-a com movimentos circulares.
Ela perturbou-se imediatamente, dominada por uma sensao de urgncia que at ento desconhecia.
-  Compreende agora o que eu disse?  muito diferente, no ?
- Eu...
- Psss...
Oliver fez com que ela se voltasse para ele, inclinando o prprio corpo sobre o dela. Leonore comeou a respirar com dificuldade e tentou se livrar daquele abrao,
mas ele a prendeu com mais fora. Foi o suficiente.
Um grito estridente, de pavor, encheu os ares. Leonore sentiu que sua vista escurecia, reviveu os pesadelos horrveis em que se afogava sem esperana de salvao...
at que a escurido total amorteceu seu crebro.
Muito ao longe, escutou Oliver cham-la. Pouco a pouco, foi voltando a enxergar a luz do Sol. Estava deitada na espreguiadeira com ele sentado a seu lado.
- Est bem agora?
- Acho que sim...
- Voc desmaiou - ele disse simplesmente. Depois olhou para o cu, onde grandes nuvens corriam velozes. - Acho que vai chover. Vamos entrar?
Ela vestiu-se e foram para casa. Sabia que, sob aquela aparncia calma, Oliver estava se condenando. Estaria aborrecido por que sua primeira experincia com ela
havia falhado? Como ele esperava que ela reagisse? Alis, por que tinha desmaiado? J comeava a se arrepender de ter vindo a um lugar remoto, sozinha com ele!
No dia seguinte comearam a trabalhar firme no livro. As idias de Oliver fluam com muita rapidez, ele as ditava para o gravador e Leonore datlografava tudo depois.
Passaram trs dias assim, ele criando, ela batendo  mquina o que ia ficando pronto. Chegaram a terminar o primeiro captulo. Leonore estava se interessando pela
histria, que era sobre um rapaz torturado pelo sentimento de culpa. Por enquanto, o leitor no sabia qual tinha sido seu crime.
Ela transcrevia as fitas deixando-se envolver pela angstia do heri. Reconhecia alguma coisa sua nele, mas no saberia dizer o qu. Era uma impresso vaga, que
aparecia para logo depois sumir.
Oliver trabalhava firme, quase sem parar, mal querendo comer. Vivia muito concentrado, no permitindo que nada o perturbasse. Leonore foi aos poucos esquecendo o
incidente da piscina. Somente  noite, s vezes, recordava o contato que a perturbara tanto. Tinha sido excitante e suave, violento e carinhoso ao mesmo tempo. Por
que sua alma estava sempre dividida? Por que to contraditria?
Do primeiro captulo em diante, o livro prosseguiu em ritmo mais lento. Oliver passava as primeiras horas do dia lendo e fazendo anotaes. Enquanto isso, ela trabalhava
no jardim, o
sol lhe dourando a pele. Gostava muito do tempo que passava l fora, vendo que com um pouco de esforo o jardim se tornava cada dia mais bonito.
Tambm escrevia todos os dias sobre tudo o que acontecia, como se sentia vivendo aquela vida nova com um homem a seu lado. Registrava tambm suas idias de vingana,
e ponderava sobre quais os elementos de que j dispunha.
J tivera vrias chances de procurar na mesa dele por provas que pudessem incrimin-lo como um reprter pouco fiel  verdade. Mas no conseguira faz-lo. Nunca em
sua vida espionara ningum, e no conseguia transgredir seus prprios princpios. Era uma pena que ele nunca falasse sobre o passado ou sobre sua famlia. Sabia
muito pouco a seu respeito.
Uma tarde, excepcionalmente quente, Oliver dispensou-a de trabalhar. Estava sem inspirao e queria ficar sozinho para se concentrar e pensar em novas situaes
para o seu personagem.
Leonore resolveu aproveitar o dia bonito e ir para a piscina. Dessa vez, foi mais fcil acostumar-se com o biquini, at achou-se muito bem com ele, agora que estava
mais bronzeada.
Colocou a espreguiadeira no sol, passou leo no corpo todo e se deixou ficar estendida, sentindo um calor gostoso envolv-la. O brilho da gua perturbava seus olhos
e acabou por fech-los.
Comeou a divagar. Como tinha mudado desde que conhecera Oliver! Ou melhor, desde que viera com ele para a Pro-vena. No se envergonhava mais de usar biquini, de
andar com o cabelo solto e batido pelo vento, de vestir as roupas modernas que ele havia lhe dado.
De repente, sentiu a presena de algum a seu lado. Abriu os olhos e viu Oliver. Sentou e uma das alas do biquini escorregou de seu ombro.
- No me ouviu chamar?
- No. Estava distrada, acho at que cochilei. No pensei que fosse precisar de mim.
- No  com isso que estou preocupado. Voc no devia ter ficado tanto tempo exposta ao sol. Tem passado vrias horas no jardim,  verdade, mas nunca s de biquini.
Sua pele ainda est muito delicada. - Ele passou os dedos por seus ombros vermelhos e ela percebeu imediatamente que ele estava certo. Sua pele ardia.
- No vai acontecer nada. Passei bastante creme antes de deitar aqui,
- Se eu soubesse onde estava, teria vindo antes. Eu a procurei por toda parte. Pensei at que tivesse ido embora.
- Ido embora? - ela repetiu, achando impossvel que Oliver pensasse que poderia fugir.
- Isso mesmo.
- A tarde estava to linda que no resisti e vim para c.
- Vai ficar com os ombros marcados por essas alas do biquini.
Oliver colocou no lugar a que tinha cado. O contato de sua mo fez com que Leonore tivesse um ligeiro estremecimento de prazer. Mas isso a assustou, fazendo com
que se afastasse.
-  Ora, Leonore! Pelo amor de Deus! No acha ainda que vou violent-la, espero! Embora eu tenha de confessar que voc s vezes age de modo a deixar um homem louco
de desejo.
Ela j nem ouvia. As ltimas palavras de Oliver martelavam sua cabea. No era a mesma coisa que o padrasto tinha dito? Ela levantou e comeou a se afastar sem se
importar com os chamados dele. Apesar de tudo o que ele sempre dizia, no passava de mais um homem igual a Bill Trenchard.
Sem saber como, caiu dentro da gua. Estava to cega que nem vira por onde andava ou para onde ia. O frio da gua em contraste com seu corpo quente a fez perder
o flego. Comeou a se debater, e a procurar o fundo da piscina, que naturalmente era funda. No encontrando nada, comeou, literalmente, a se afogar.
Algum tentava segur-la, mas ela, inconscientemente, lutava com todas as suas foras para se soltar, apavorada demais para compreender que Oliver estava tentando
salv-la.
Com muito custo ele conseguiu tir-la da piscina. Deitou-a de bruos e apertou seus pulmes para que expelisse a gua que engolira. Ele estava completamente encharcado,
no tivera tempo sequer de tirar o tnis.
-  Que diabo estava tentando fazer, Leonore? Ia se afogar s porque toquei em seu ombro?
- No era por isso! - ela queria explicar. Eram as palavras que a tinham magoado! Tentou falar, mas sua garganta estava to irritada, que teve que ficar quieta.
Comeou a tremer in-controlavelmente de susto, de frio e de tenso nervosa. Oliver a tomou nos braos, apertando-a contra o peito. Ela sentiu que por baixo da camisa
molhada, seu corao batia to descompassado quanto o dela!
Ele a carregou para casa. Ela se aconchegava no peito dele, sentindo-se segura e protegida.
-  Amanh mesmo voc vai comear a aprender a nadar. Pode bancar a mrtir, se quiser, mas no vou aceitar correr esse risco. J chega os problemas que tenho para
arrumar outros.
Oliver subia as escadas depressa, como se Leonore no pesasse mais que uma pluma. Entrou no quarto dela e a colocou na cama, com cuidado.
- Fique quietinha a. Talvez sinta um pouco de enjo, porque engoliu muita gua. Mas vamos dar um jeito nisso.
-  O que vai fazer? - Ela viu que ele se afastava e ficou com medo de ficar sozinha. Mas... no tinha coragem de lhe pedir que ficasse, apesar de ainda estar gelada
e tremendo.
- Vou preparar um banho quente para voc. Vai se sentir muito melhor depois.
Leonore encostou a cabea no travesseiro. Um banho quente ia ser timo. Era exatamente do que precisava. J estava de olhos fechados quando Oliver voltou. Tinha
tirado a roupa molhada e usava um robe de toalha fechado na cintura por uma faixa.
- Levante, Leonore.
Ela no queria! Naqueles poucos instantes seu corpo tinha ficado pesado como chumbo e agora s queria dormir, dormir...
-  No pode dormir agora! Tem que vencer essa letargia. Vamos, o banho est pronto. - Ele a forou a levantar e conduziu-a at o banheiro, mas no saiu de l.
- V embora. No vou tirar o biquini com voc aqui - disse com voz mole.
- Vou ficar, Leonore. Tanto se pode afogar na piscina como na banheira. Deixe de frescura e desamarre isso!
Ela no se mexeu. Oliver desatou as tiras do biquini e acabou por tir-lo. Ela deixou, sentindo frio, as pernas bambas, o corpo todo arrepiado. Em seguida a colocou
suavemente dentro da gua.
Que sensao maravilhosa! O calor parecia se irradiar por suas veias. Esticou-se, disposta a ficar ali por horas e horas. Mas Oliver no deixou. Tirou-a da gua
pouco tempo depois, esfregando-a com uma toalha felpuda e macia at que sua pele ficasse vermelha pela circulao ativada.
- Agora est parecendo a Leonore que eu conheo e...
- E... - ela quis saber.
- Nada, mocinha. Espere aqui. Vou l embaixo buscar uma bebida!
OJiver desceu e ela sentou-se na cama. Estava bem melhor agora. Oliver voltou em dois minutos, trazendo um copo de conhaque.
- Beba tudo.
Ela deu um gole pequeno e sentiu a garganta queimar. Mas a sensao foi boa, enchendo-a de bem-estar.
- O que aconteceu, Leonore? Quis se afogar s porque cheguei muito perto de voc?
- No foi por isso. Foi o que disse.
- E o que foi que eu disse, para choc-la tanto?
- Disse que eu podia enlouquec-lo de desejo.
- E s por isso resolveu se afogar? Que loucura!
- Foi a mesma coisa que meu padrasto falou na hora que... eu... eu... - No pde continuar. Sentiu um n na garganta, e lgrimas quentes comearam a escorrer por
suas faces.
Oliver chegou mais perto e lhe segurou as mos.
- Pobre Leonore! Ento foi isso... Espere um pouquinho, volto j.
Voltou com um robe felpudo igual ao dele para ela vestir. Ajudou-a a secar os cabelos e insistiu para que tomasse outro gole de conhaque.
- Agora vamos cuidar desses ombros vermelhos. Trouxe uma pomada que vai alivi-la muito.
Afrouxou o cinto do roupo que havia ajudado a vestir, abrindo a gola para que seus ombros ficassem expostos. Com muita ternura, comeou a passar a pomada nos lugares
mais atingidos. Leonore sentiu alvio e... prazer. Como era bom sentir as mos dele em seu corpo!
Como se seus braos tivessem vontade prpria, enlaou o pescoo de Oliver. Seu rosto estava muito junto ao dele, um sorriso bonito brincando em seus lbios.
- Assim no consigo resistir. Afinal de contas, sou de carne e osso. - Oliver livrou-se daquele abrao e fez com que ela deitasse. - Onde est sua camisola?
- Em cima da poltrona.
Oliver pegou-a mas desanimou ao sentir a grossura do tecido. - No pode us-la. Vai ficar com os ombros doendo. No tem nada mais leve?
- No...
-  Bem, ento acho que deve fazer como eu. Durmo sem roupa. Por que... no tenta a mesma coisa?
- Vou experimentar... qualquer dia.
- Deixe eu acabar de cuidar de sua pele antes de sair. - Oliver recomeou a passar a pomada.
- Esse remdio faz milagres! Voc tambm se queima demais de vez em quando?
- No. J estou acostumado com o sol forte. Compro essa pomada por causa de meus sobrinhos, que costumam passar frias aqui. Alis, foi minha irm que descobriu
que era boa.
- No sabia que tinha irm!
- Tenho sim. Ela  bem mais velha que eu, casada e muito feliz. Tem quatro filhos, o menor com doze e o maior com vinte anos.
Era a primeira vez que Oliver falava em sua famlia. Ele era muito reservado, mas estava comeando a se abrir.
- Agora vou passar o remdio em suas costas. Vire-se. Leonore deitou de bruos e Oliver sentou na cama, descobrindo o corpo dela at a cintura. Ela aproveitou aqueles
momentos de gostosa intimidade. Talvez por v-lo to cuidadoso, ou, quem sabe, por causa do conhaque que tomara, estava achando muito natural estar ali com ele.
- Pode virar. S vou passar um pouco mais em seu pescoo. Ela virou-se na cama, olhando para o rosto expressivo de
Oliver. Num impulso, colocou a mo na abertura do roupo dele, sentindo os plos macios e escuros sobre a pele morena. Fechou os olhos, uma sensao de paz enchendo
sua alma.
- Leonore, no vai dormir, no ?
- Por qu? Voc se incomoda se eu dormir? - O conhaque a deixou com uma sensao boa, como se estivesse solta numa nuvem passeando pelo cu.
- No, desde que acorde em meus braos... E isso que quer?
Seria isso? Claro que no! No entanto, quando Oliver se preparou para levantar, ela o reteve, escondendo a cabea em seu peito.
- Leonore... voc... - Ele ergueu o queixo dela, obrigando-a a levantar a cabea e olh-lo de frente.
Ela no escondeu o que sentia. Seus olhos demonstraram claramente o quanto queria ficar junto dele, o quanto precisava de seu carinho. Nesse curto instante, ela
ps sua alma a descoberto.
- No v embora, Oliver. Quero que fique comigo.
-  Quer mesmo, Leonore? Acho que no avalia o que est dizendo.
Oliver a estreitou em seus braos. Leonore assustou-se e tentou escapar, mas ele j deixava transparecer seu desejo, aproximando a mo dos seios descobertos. Ela
sentiu um medo to grande do que estava para acontecer que ficou tensa de repente.
- Oliver, no... no, por favor.
- No diga isso, Leonore. No dessa vez. - Ele a acomodou na cama, percorrendo com os olhos o corpo jovem e saudvel.
- Vou odiar voc... se continuar.
-  Oh, no, prometo que no. - Ele se inclinou sobre ela, beijando-lhe os lbios entreabertos. - Abrace-me, Leonore.
Levada por uma fora quase hipntica, ela fez o que Oliver pedia. Ele tinha tirado o robe e ela pde sentir o contato perturbador de suas peles se tocando. Deslizou
as mos pelos ombros dele, explorando os msculos que se contraam ao abra-la.
- Ah, Leonore, voc no sabe o que consegue fazer comigo! Oliver lhe beijava a boca com ardor e ela correspondia, tomada por um redemoinho sem fim de prazer.
Os lbios de Oliver foram descendo por seu pescoo esguio, suavemente... detendo-se na curva suave entre seus seios, transportando-a para regies mgicas onde somente
existiam aquelas emoes indescritveis. Nada mais no mundo poderia atingi-la, a no ser aquela torrente de paixo, que a fazia sonhar, flutuar.
Deixou-se envolver completamente pela emoo. Acompanhou os ombros dele com os lbios, sentindo os plos do peito dele roarem em seu nariz. Como era bom estarem
ali juntinhos!
Nunca experimentara sensaes to maravilhosas! Gemeu baixinho quando Oliver beijara-lhe o bico dos seios comprimindo-se contra ela cada vez mais e murmurando palavras
sem nexo, sem saber como demonstrar toda a fora de seus sentimentos.
- Voc no  feia, Leonore! Pelo contrrio,  a mulher mais ardente que j tive nos braos!
Foi como se uma ducha de gua fria tivesse cado sobre ela! Podia estar descobrindo isso agora, mas no estava preparada para ouvi-lo falar assim! Viu novamente
as lembranas amargas virem  tona.
- No!
- Voc corresponde aos meus carinhos, gosta deles, tambm me deseja!
Como num filme, mil cenas comearam a se desenrolar  sua frente. Lembrou-se da promessa de Oliver de torn-la uma mulher vibrante. Era isso que ele estava tentando
provar! No passava de um objeto de experincia nas mos dele! Oliver no sentia nada por ela, queria apenas mostrar-lhe que estava certo, era horrvel!
Imediatamente tentou escapar ao abrao, mas ele a segurou com firmeza, obrigando-a a encar-lo.
- Pare de lutar contra si mesma! - Tornou a beij-la com muito carinho, nos olhos e depois nos lbios, at sentir que ela parava de resistir, entregando-se novamente
s prprias sensaes.
Oiiver era mais poderoso do que uma droga. Deixava-a frgil e sem foras, incapaz de pensar em mais nada. S queria sentir seus carinhos...
Muito de leve, ele recomeou a beijar-lhe os seios, entregando-se pouco a pouco a uma volpia sem fim.
De repente, o corpo de Oliver ficou tenso e ele levantou a cabea.
- Estou ouvindo um barulho de carro. Quem ser? - Ele fitou-a bem nos olhos. - No fique triste, menina, talvez tenha sido melhor assim.
Ergueu-se da cama e vestiu o roupo. Leonore deixou-se ficar deitada, as faces em fogo, escondendo o rosto no travesseiro.
Ele desceu e ela continuou imvel. Ouviu que o carro parava na frente da casa. S ento comeou a pensar no que havia acontecido.
O que tinha feito? O que Oliver ia pensar dela? Talvez agora, mais do que nunca, a achasse interessante para suas observaes. Conseguira lev-la quase a fazer amor
com ele assim, sem mais nem menos, tudo como parte de um plano para transfor-m-la numa mulher completa. Ele era frio, esperto e perigoso... Pela janela do quarto
escutava o barulho de vrias pessoas rindo e conversando. Quem teria chegado? Prestou ateno, para ver se descobria, as vozes ecoavam todas ao mesmo tempo. Oliver
estaria esperando visitas? No, ele mesmo no fazia idia de quem podia ser. Logo depois, ele subiu.
- Leonore, minha irm chegou com a famlia toda. No precisa descer, se no estiver com vontade. Eles vo apenas passar a noite aqui, para continuar a viagem amanh.
Ela percebeu o que ele queria dizer nas entrelinhas. Aquela reunio era puramente familiar e preferia que ela ficasse de fora. Assim que ele saiu comeou a dar socos
no travesseiro, com dio. Sentia-se abandonada, rejeitada e, o pior, ansiava pelos carinhos interrompidos. Por que aquela irm tinha aparecido logo agora?
Mas... mas... no estava entendendo a prpria reao. Ento ela queria que Oliver voltasse para fazer mais carinhos e... possu-la? Teria ficado louca? Sua finalidade
no era se vingar dele? Como pudera mudar tanto! Tinha que manter seu dio vivo, pensar numa maneira definitiva de destru-lo, isso sim.
Claro, agora compreendia tudo. No ouvira falar tantas vezes que amor e dio eram duas faces da mesma moeda? O que sentia por Oliver era dio, mesmo, por isso chegara
a compreender seus sentimentos daquela maneira. S podia ser isso. Por alguns momentos pensara ter descoberto o que era o amor, mas fora conduzida a ele pelo dio.
                                                CAPTULO VII
Levantou cedo, vestiu-se, e desceu para preparar o caf da manh. No estava curiosa por conhecer a famlia de Oliver, mas queria ser til.
Estava pondo os croissants no forno quando a porta da cozinha se abriu e dois rapazes entraram. Ficaram surpresos em encontr-la ali,
-  Oi! - o mais jovem cumprimentou. - Voc deve ser a secretria de tio Oliver. Puxa, quem me dera ser escritor.
Ento esse era um dos sobrinhos de Oliver? Devia ser o de vinte anos. Seu companheiro, um pouco mais velho, sorriu para ela com um ar interessado. Engraado, Leonore
pensou, se fosse h duas semanas, teria ficado embaraada com esse olhar.
- Pare de encarar a moa. Chas. Assim voc vai deix-la sem jeito. -Virou-se para ela, - No se impressione com meu amigo. Ele sempre age como se fosse a primeira
vez que v uma moa bonita. Bem,  melhor nos apresentarmos. Sou Richard, sobrinho de Oliver Savage. Este  meu amigo, Charles Hawley. Estamos trabalhando esse vero.
Mame nos contratou para tomarmos conta das crianas menores. Assim aproveitamos para passear e ganhar um dinheirinho. Estamos indo para a Espanha. - Tomou flego.
- Quer alguma ajuda?
Ela sacudiu a cabea, sorrindo.
- Ento, Chas, vamos aproveitar e dar um mergulho antes do caf? - E saram em disparada.
Leonore comeou a arrumar a mesa. Fez as contas mentalmente e verificou que seriam oito lugares. Esperava apenas que a famlia no se importasse dela estar junto.
Se, por acaso, notasse que preferiam ficar sozinhos, daria um jeito de comer depois.
Meia hora mais tarde estavam todos reunidos em torno da mesa. Leonore sentou entre Oliver e a irm, Elizabeth. Ela era muito parecida com o irmo. Devia ter quarenta
anos, era tranquila e muito alegre.
- Foi uma pena que seu marido no pudesse vir tambm. - Oliver conversava com a irm.
- , mas pelo menos tenho os rapazes para me ajudar.
- Acha mesmo que eles vo continuar a tomar conta dos pequenos, depois que virem as maravilhas da praia de Marbel-la? - Oliver piscou os olhos para o sobrinho mais
velho.
Richard corou mas Charles Hawley apenas sorriu e olhou para Leonore. Ela aproveitou para comparar os dois rapazes. Embora houvesse pouca diferena de idade entre
eles, Chas parecia muito mais vivido e malicioso. Oliver dava a impresso de no estar gostando do rapaz e, cada vez que o via dirigir a palavra a Leonore, intervinha,
no permitindo que a conversa fosse adiante.
- Voc e Richard so amigos h muito tempo? - Leonore perguntou para Chas.
- H dois anos. Somos colegas de faculdade.
Ela observou Richard. Era um jovem bonito, ainda meio ga-roto e, obviamente idolatrava o tio. Mas estudava para ser mdico, como o pai. Abaixo dele havia os gmeos,
com quinze anos. Eram to parecidos que Leonore no conseguia distingui-los, e loiros, ao passo que Richard e a irm menor, Ana, eram bem morenos, como Oliver.
- Paul e Robert, os gmeos, puxaram pelo pai - explicou Elizabeth enquanto ajudava Leonore a tirar a mesa. - Os verdadeiros Savage so Richard e Ana. A propsito,
est gostando de trabalhar para meu irmo?
- Sim, muito. O trabalho  interessante e sempre tem um pouco de suspense.
-  Imagino que no deve ser fcil conviver com ele, principalmente por causa de seu temperamento explosivo.
- Estamos nos dando bem, pelo menos at agora.
- Ainda bem. Talvez ele esteja melhorando. E que tal esse novo livro?
- S esto prontos alguns captulos, falando do personagem central. Ainda no sei o que vai acontecer.
- Esse personagem  uma mulher?
- No.  homem. Tem um sentimento de culpa muito profundo por algo que lhe aconteceu no passado.
- Se conheo bem meu irmo, deve ter um pouco dele mesmo nesse personagem. Todos os seus livros tm. Como conseguiu esse emprego? Oliver, em geral, no precisa de
secretrias.
- Eu lhe pedi para trabalhar com ele.
- E eu aceitei a oferta. - Oliver comentou, aparecendo na cozinha. - Beth, tem de dar um jeito em seus filhos. J esto ficando entediados.  uma pena que esteja
ventando no nico dia que vo passar comigo. Em todo caso, pensei que  tarde poderamos fazer um passeio at Arles.
- Convida para um passeio  tarde desde que eu os tire do seu caminho de manh, no ? - Beth riu com vontade. - Est bem, vou dar um jeito, mas por que no tira
uma folga hoje? Temos to poucas oportunidades de estarmos juntos!
-  verdade mas, infelizmente, tenho muita coisa para pr no pape! e preciso aproveitar os momentos de inspirao. - Oliver saiu, antes que a irm retrucasse.
- Meu irmo  impossvel! Nunca temos outro remdio seno fazer o que ele quer. Acho que vou mandar os meninos passarem aspirador na sala. Isso os manter ocupados
at a hora do almoo.
- Melhor pensar em outra coisa, Elizabeth. Oliver sempre trabalha na sala.
- Oh, mas ele sabe o que o espera quando eu chego com a tropa toda. - Elizabeth riu. - Uma vez, quando os gmeos eram pequenos, literalmente comeram as beiradas
de um manuscrito inteiro. Desse dia em diante, Oliver se retira para o quarto, a cada vez que me v chegar.
Leonore tambm riu, mas estranhou ver a sala sem a presena marcante de Oliver.
- Nossa! Como as prateleiras esto empoeiradas! Tenho certeza de que meu irmo a proibiu de mexer nelas, no foi?
- Isso mesmo. Ele foi muito direto e me disse que no tocasse nelas nem em sua mesa.
- Vamos respeitar a mesa, mas j que estamos aqui, que tal arrumarmos a estante?
- tima idia. Acho que conseguiremos tirar a poeira sem
desarrumar nada.
Era um mvel muito grande, com algumas partes fechadas, formando pequenos armrios, e vrias gavetas.
Leonore resolveu comear por elas. Assim que abriu a primeira, um mao de folhas datilografadas caiu no cho. Ela tirou o resto, limpou a gaveta e comeou a juntar
os papis para tornar a guard-los. No pretendia l-los, mas viu que todos estavam datados de seis anos atrs. Um deles era o rascunho de um artigo sobre o Extremo
Oriente, outro tinha anotaes sobre um debate a respeito da estatizao da educao. Havia diversos, mas Leonore mal os olhou, at que... seus olhos caram sobre
seu prprio nome!
Ela soltou uma exclamao abafada, ficou plida e suas mos tremeram ao segurar a folha de papel. Elizabeth, assustada, veio para junto dela.
- O que aconteceu? Est to plida!
- Nada...
Elizabeth olhou para o papel e imediatamente compreendeu
o que houvera.
- Leonore... Minha querida! Voc  a garota, no ? Achei que seu nome me soava familiar, mas no tinha lembrado at agora. Pobre menina! Ento Oliver finalmente
a encontrou! Lembro-me muito bem de tudo.
- Faz... faz muito tempo!
-  mesmo! Naquela poca, nossos pais ainda eram vivos e ficaram muito chocados com a morte de nosso primo, Peter. Ele estava sempre l em casa e ns o considervamos
como irmo. Foi um golpe muito duro.
- Oliver me contou alguma coisa a esse respeito.
- Ento voc sabe do caso, no ? Durante muito tempo, Oliver se considerou culpado pelo que houve com Peter. A garota que se envolveu com ele j tinha sido namorada
de Oliver. No era nada srio e logo ela conheceu Peter e se agarrou a ele. No duvido que tenha mentido, dizendo que Oliver a seduzira. O pior  que Peter acreditou
nela, pelo menos a princpio.
- Que confuso!
- Nem fale! Quando Peter morreu, Oliver mudou comple-tamente. Ns todos notamos e mame ficou muito preocupada com ele. Acho que quando escreveu esse artigo sobre
voc ainda estava profundamente impressionado com o caso de Peter.
Leonore no disse nada. Preferia escutar e saber mais a respeito de Oliver.
- Meu irmo lhe contou que mame pediu que ele a levasse para conversar com voc? Estava convencida de que voc no mentia, mas Oliver no consentiu que ela fosse.
Sempre foi muito teimoso. Tinha certeza de estar com a razo e nem mame conseguiu convenc-lo do contrrio.
- Gostaria de ter falado com ela. Precisava tanto de ajuda...
- Ele se arrependeu amargamente de no ter deixado, principalmente depois que soube da verdade. Ficou arrasado. Queria at desistir do jornalismo e jurou que, de
alguma maneira, ia reparar o mal que fez.
As duas foram sentar no sof e Elizabeth prosseguiu:
- Andou atrs de voc como um desesperado. Tentou publicar um outro artigo retratando-se, contando a verdade que agora conhecia, mas o editor no permitiu, afirmando
que aquilo apenas faria com que o pblico desacreditasse no s dele como tambm do jornal. Jornalistas no podem errar, foi o que lhe disseram. Oliver sempre foi
muito sensvel, desde criana. Achava impossvel viver carregando o peso da culpa. Ainda bem que ele a encontrou!
Leonore continuou calada, os olhos baixos.
- Como se sente a respeito de meu irmo? Conseguiu perdo-lo?
Como podia dizer a verdade? E, por outro lado, por que mentir? Leonore mordeu os lbios, os olhos cheios de dor.
- Acredito que Oliver tenha agido de boa f. Meu padrasto era um mentiroso muito convincente. Convenceu at minha me, que foi testemunha do que aconteceu. Ela preferiu
acreditar nele e no em mim. Se minha me agiu assim,  muito natural que Oliver tambm tivesse acreditado em meu padrasto.
Os gmeos entraram na sala com o aspirador, fazendo tanto barulho que as duas deram a conversa por terminada. Voltaram para a estante, e acabaram a arrumao. Leonore
resolveu no recolocar o artigo sobre ela na gaveta, e levou-o para seu quarto.
Talvez tivesse encontrado a arma para feri-lo, ali, na sua prpria histria. O prprio editor no dissera que um jornalista no podia errar, ou ficaria desacreditado?
Teria que pensar em como usar aquilo. Ainda no estava claro em sua mente o que poderia fazer. Por outro lado, a simples idia de conseguir realizar sua vingana
a fazia tremer. Estaria se acovardando? Se encontrasse a maneira de prejudic-lo, conseguiria p-la em prtica?
Tomou um banho e se recomps. Tinham combinado almoar mais cedo e sair logo em seguida para Aries. Oliver precisava comprar uns livros e tambm alguns suprimentos
para a casa. Fizera questo que ela fosse tambm.
- Mas, Oliver, vocs esto em famlia. No vo querer minha companhia!
- Nada disso. Voc vai conosco.
-  Por qu? Por acaso  mais um passo que devo dar em meu aprendizado? Como o de ontem  noite? - Ela corou s de mencionar o que tinha havido entre eles.
- Se quer pensar assim... .
De algum modo ela o deixara aborrecido. Durante o almoo, Oliver parecia irritado e sem pacincia. Leonore procurava conversar com Richard para disfarar seu mal-estar.
- Eu e Chas vamos com nosso carro, Leonore. Por que no vem conosco?
Antes que ela pudesse responder, Oliver falou em tom bem alto:
- Ela  minha secretria e est aqui para trabalhar e no para brincar.
Houve um silncio constrangedor na mesa, mas depois a conversa recomeou. Quando terminaram a refeio, Oliver deu um jeito de ficar a ss com Leonore.
- Pode alcanar sua libertao como mulher passo a passo. No precisa dar saltos com meu sobrinho!
O que ele queria dizer com isso? Achava que ela estava interessada em Richard? Ora, isso era ridculo! Estavam apenas conversando... nada mais!
Resolveu no responder nada. Tranquilamente saiu da sala e j tinha subido metade da escada quando ele a chamou.
- J que vai subir, poderia pegar meu casaco, na poltrona de meu quarto?
Ao entrar no quarto, impressionou-se com a confuso de papis espalhados por todos os cantos. Sobre a mesa havia uma mquina de escrever porttil e vrias folhas
j datilografadas. Ao passar por elas para pegar o casaco, bateu os olhos em algumas anotaes: "Corresponde fisicamente. Quando desprevenida, age com muita naturalidade.
Emoes comeam a explodir. Ainda existe medo, no sei se do passado ou de si mesma."
Havia mais coisas escritas e, como ela desconfiava, estava claro que eram a seu respeito. No teve mais dvidas de que Oliver procurava estudar sua personalidade
para us-la como personagem de algum romance. Por isso ele a tinha levado para aquele lugar perdido e solitrio. Essa histria de querer ajud-la era pura fantasia,
uma maneira de engan-la para conseguir o que queria.
- Leonore?
A voz de Oliver, vinda de baixo, a fez lembrar-se do que tinha ido fazer ali. Seria um erro deix-lo perceber que ela conhecia suas intenes reais. Pegou o casaco
e se apressou em descer.
O que deveria fazer? Como agir? Gostaria de ir embora, deixar seu passado ali mesmo e se livrar da presena perturbadora de Oliver, mas... assim nunca se vingaria
dele. S restava recusar-se a participar de suas experincias, teria que consegui-lo.
Como tinha sido boba! Na noite anterior, deixara-se levar como uma idiota. Chegara at a achar que podia encontrar carinho e segurana nos braos de Oliver! Mas
no ia lhe dar o prazer de saber que estava magoada, isso no!
-  Demorou muito l em cima. No estava encontrando o casaco?
- Tambm fui pentear o cabelo - ela mentiu.
Leonore teve a impresso de que Oliver a observava com ateno. Talvez porque estivesse com o esprito prevenido, via agora tudo com outros olhos. Sentia-se como
uma cobaia de laboratrio, em eterna observao. Que dio sentia por ele! Mas no fazia mal. Assim teria mais foras para realizar sua vingana que, esperava, seria
terrvel.
Foram para Aries, que brilhava ao sol da tarde. Era um lugar lindo, parecia uma pintura. Leonore tinha tomado intimamente a resoluo de passar a tarde sozinha,
para se ver livre da ateno de Oliver. J que no estava trabalhando, ele no poderia obrig-la a passar o tempo todo com sua famlia. Queria ficar sozinha, pensar
na sua vida, espairecer.
Desceu do carro assim que ele estacionou sua Ferrari atrs do carro de Elizabeth.
- Onde voc pensa que vai? - ele perguntou. Os olhos grandes no a deixavam em paz nem por um minuto. - J esqueceu que hoje  dia de trabalho? Se est querendo
passear com meu sobrinho e Chas, pode desistir. Precisamos renovar o estoque de comida da casa. Voc pode fazer isso e tambm ajudar Elizabeth a tomar conta de Ana.
- Pelo jeito, estou acumulando funes. Quer que seja secretria, governanta e bab? Alm disso, desde que cheguei, no tive um dia de folga. Portanto, se eu quiser
passar esta tarde... - ela ia dizer "sozinha", mas num impulso de raiva, continuou - fazendo o que quero, no pode me impedir.
- Que diabo! - ele murmurou por entre dentes.
Leonore compreendeu que agora tinha mexido com o temperamento explosivo de Oliver. Nunca o tinha visto to zangado. E da? Tambm tinha o direito de estar chateada,
depois de ter constatado que escrevia sobre ela.
-  O que est havendo com vocs, Oliver? - Elizabeth se aproximou. - Algum problema?
-  No, mana.  preciso haver intimidade para se brigar com algum. Eu e Leonore no somos to amigos assim. Estava apenas sugerindo que cada um de ns faa o que
precisa. Podemos nos separar agora e nos encontrar nessa mesma praa daqui a trs horas. Que tal?
-  uma pena, Oliver. Pensei que iramos juntos visitar o anfiteatro romano. - Elizabeth estava desapontada.
-  Infelizmente, eu tenho de fazer umas compras e minha secretria quer ver tudo sozinha. Ento... cada um por si.
O grupo se dispersou. Leonore saiu caminhando depressa, mas, para sua surpresa, logo depois Chas Hawley estava a seu lado.
- No quis ficar com Richard?
- Ele  timo, mas...  um pouco imaturo e fico cansado de ouvi-lo falar o tempo todo no querido tio Oliver, seu heri. No tenho pacincia para aguent-lo muito
tempo. No pensa como eu?
Leonore sacudiu a cabea. Pelo contrrio, achara Richard muito simptico.
- Oua, por que no aproveitamos para ficar aqui  noite? Poderamos jantar, depois ir danar em algum lugar. Vai ser meu ltimo adeus  liberdade, antes de passar
o resto das frias como bab das crianas.
Ela no fazia questo nenhuma de ficar ali nem de danar. E no gostara da maneira como Chas falava da famlia que o tinha trazido nessa viagem. Mas... percebera
que Oliver no ficara muito satisfeito ao v-la com Chas. No seria uma boa idia ficar ali, nem que fosse s para deix-lo aborrecido?
- Como , Leonore? Voc topa? S vamos embora amanh de manh e seria uma tima despedida. Que tal?
- No sei... vamos deixar para decidir mais tarde, est bem? Nunca se sabe! Voc  capaz de ficar cheio de mim antes que a tarde termine.
- Duvido muito...
Os dois riram e comearam a percorrer os pontos interessantes da cidade. Chas era divertido e tinha muito senso de humor. Ela acabou dando boas risadas na companhia
do rapaz.
que no tocou mais no assunto de ficarem ali. Somente quando estavam voltando para a praa foi que Leonore se conscientizou de que tinha passado a tarde toda com
um homem. Que progresso! Isso era impensvel, antes de ter vindo para a Provena.
Se bem que no era vantagem nenhuma. Comparado com Oliver, Chas era completamente inofensivo. Por que estava pensando em Oliver? Ele no significava nada para ela!
No entanto... fora graas a ele que havia passado uma tarde divertida com um rapaz de sua idade. Tinha de reconhecer que ele j conseguira ajud-la, que lhe fazia
bem, mesmo que a estivesse usando.
Foram os ltimos a chegar. Chas tinha colocado a mo no ombro de Leonore e ela no se afastou. Era uma maneira de provar que j no tremia de pavor quando um homem
a tocava. Assim, ao chegarem na praa, pareciam um casal de namorados, passeando.
- Esto atrasados - Oliver reclamou. - J estvamos esperando h bastante tempo.
- Foram s cinco minutos, Oliver. - Elizabeth tentava acalm-lo. - No precisa ficar to zangado. No lhe disse que no tinha por que se preocupar?
- Tem razo - Chas concordou. - Estamos muito bem. Vamos at ficar por aqui para jantar.
Leonore estava pronta para recusar o convite quando viu a pilha de livros que Oliver tinha comprado. Todos eram sobre psicologia.
Ser que pretendia se aprofundar ainda mais em sua anlise? Pois jogara dinheiro fora, porque no ia permitir. Estava cansada de ser observada.
-  verdade, Leonore? Quer mesmo ficar aqui com Chas?
- Quero sim. - Ela sentiu-se feliz em aborrec-lo. Tinha certeza de que Oliver preferia que ela fosse embora e era um prazer desafi-lo.
-  Espero que saiba o que est fazendo. - Ele se virou, pedindo aos outros que entrassem no carro. Antes de partir, ainda conseguiu dizer a ela, sem que ningum
ouvisse: - Tome cuidado. Deixar o passado para trs  excelente, mas tentar recuperar seis anos em um dia  uma temeridade. Ainda tem muitos pontos fracos e no
gostaria que sofresse de novo.
Leonore ficou indignada. No era mais criana para ouvir sermes. E ele no era seu pai, para lhe dar tantos conselhos.
- Se precisar de ajuda, Chas estar por perto para me proteger.
Oliver contraiu os lbios, nervoso.
- Leonore, voc  mesmo irresponsvel. Parece pedir que coisas ruins lhe aconteam.
O resto do pessoal comeou a buzinar, chamando Oliver. Eles se despediram e Chas prometeu que voltariam cedo, para no atrasar a partida no dia seguinte.
- Arles no  Paris, Elizabeth. s dez horas deve transformar-se num cemitrio. Estaremos em casa logo depois das dez.
Depois que ficaram sozinhos, Leonore comeou a ter dvidas sobre o que havia feito. Talvez no tivesse sido boa idia desafiar Oliver daquela maneira. Tambm Chas
logo mudou seu modo de agir. Agora estava sempre com o brao em torno dela e de vez em quando dava um jeito de esbarrar no corpo dela. No gostou desse excesso de
intimidade e tratou de se manter afastada.
- No sabia que era to puritana, Leonore. Principalmente vivendo com um homem como Savage.
- No vivo com ele. Sou apenas a secretria dele. - Ela estava indignada. - No  como voc pensa, Chas.
-  No sei no. Oliver tomou uma atitude to possessiva, demonstrou tanto que no queria que voc sasse comigo, que me parece impossvel que no haja nada entre
vocs.
- Estava preocupado comigo, nada mais.
-  Devia estar mesmo! Teve medo que algum resolvesse pescar em guas que considera particulares. Acho que ele podia ser mais moderno e compreender que as moas
de hoje no pertencem a um homem s.
- No concordo com voc, Chas. Penso que todo homem ou mulher tem vontade de ter apenas um algum para amar a vida toda. Mas nada disso est acontecendo comigo ou
com Oliver. Sou s a secretria dele.
- Torno a dizer que  difcil de acreditar. Vi muito bem que ontem  noite, quando chegamos, s havia luz acesa em um dos quartos da casa. Quer que lhe diga o que
isso me sugere?
Ela no ia perder tempo tentando convenc-lo do contrrio. Alm disso, o que fazia no era da conta dele.
- No precisa dizer nada, porque no estou interessada. - Leonore queria acabar com a conversa. - Sabe, Chas, no creio que tenha sido uma boa idia ficarmos aqui.
Vamos voltar para casa?
-  S para que o famoso Oliver Savage fique sabendo que prefere ficar com ele do que comigo? Nada disso, boneca. No aguento mais ouvir Richard elogiar o tio to
inteligente. Ele j deve ser um poo de convencimento, no precisa que voc tambm v demonstrar que o acha o mximo. J que quis ficar, agora vai passar umas horas
agradveis aqui comigo.
- No  nada disso. Estou realmente cansada e preferia ir embora. Por favor. Chas.
- O que  que h, Leonore? - Ele levantou as sobrancelhas de modo sarcstico. - Tem medo que eu no seja to boa companhia como Oliver?
Ela logo se convenceu de que o rapaz no ia mesmo lev-la de volta to cedo. Talvez fosse melhor irem jantar de uma vez. Depois pediria novamente para ir para casa.
No restaurante, Chas pediu uma garrafa de vinho. Leonore mal tocou no copo, enquanto ele consumia a bebida toda, sozinho. Terminaram a refeio por volta das dez
horas. Ela tornou a insistir, dessa vez com mais veemncia, que queria voltar.
-  Est bem. Vamos embora. - Chas fechou a cara e se levantou. J estava mais ou menos na metade do caminho quando ele parou o carro no acostamento. Estava muito
escuro e a estrada era praticamente deserta. Leonore tremeu de medo ao v-lo desligar o motor e chegar mais perto dela.
- Procure relaxar, boneca. Por que est to nervosa? - Ele passou os braos pelos ombros dela.
- Elizabeth j deve estar preocupada. Voc lhe prometeu que chegaramos cedo, lembra-se? Realmente, se vo viajar...
- Elizabeth vai achar ruim? Voc quer dizer Oliver, no ?
Que coisa horrorosa! Como  que sai com um homem se est pensando o tempo todo em outro? Esperava que pudssemos nos divertir juntos.
- Voc me convidou para jantar, Chas, e eu aceitei.
-  Ora, Leonore, ningum convida uma moa apenas para jantar.
- Acha ento que devo lhe pagar a gentileza, de alguma maneira? Sinto muito, mas pegou a garota errada.
Leonore se afastou e abriu a porta do carro. Comeou a andar pela estrada, disposta a ir a p. Chas deu partida e foi atrs dela lentamente, com o carro.
-  Deixe de ser antiquada! No finja que no sabia o que podia acontecer quando aceitou o convite.
Ela estava furiosa. O que esse rapaz pensava que ela era? Alguma garota de programas? Que idiota! Nunca deveria ter aceitado o convite. Olver bem que havia tentado
preveni-la, mas ela, s por capricho, acabara se arriscando desse jeito. Como queria estar em casa, em segurana!
Chas ainda falava a seu lado, mas, vendo que ela no o atendia, bateu a porta com fora, acelerou o carro e sumiu  distncia, cobrindo-a de uma poeira fina. As
palavras que gritou, antes de partir, ainda ecoava em sua mente.
"Voc quer Savage, no ? Ento ele que a leve para casa!"
Ser possvel que esse louco ia deix-la ali na estrada, sozinha, sem conduo para ir embora? No, ele estava apenas querendo assust-la. Logo estaria de volta.
Mas o tempo foi passando e Chas no voltava. Ele tinha ido na direo de Arles, e no da casa. Agora, ela estava sozinha e nem ao menos sabia a que distncia estava
de algum lugar onde pudesse pedir ajuda. Comeou a soluar apavorada, mas logo se controlou. No adiantava nada se desesperar. Precisava pensar com calma e solucionar
seu problema. Ao longo da estrada deveria encontrar algum, algum lugar habitado, alguma coisa...
Os barulhos da noite a assustavam e ela estava cada vez mais solitria e amedrontada. De repente, ouviu o barulho de um carro se aproximando. Tomara que fosse Oliver!
Mas o carro
passou a toda velocidade. Alis... como Oliver poderia vir peg-la, se nem sabia onde ela estava? E por que pensara nele como seu salvador?
Aquilo pareceu despert-la para alguma coisa que h muito tempo vinha escondendo de si mesma, seus verdadeiros sentimentos.
Sentou na beira da estrada, tremendo, mas com o corao repleto de alegria e satisfao. Sentia tudo ao mesmo tempo: esperana, prazer, alegria e... acima de tudo...
Acima de tudo... o qu?
Precisava analisar o que tinha dentro do corao e aceitar a verdade. Queria que o carro fosse o de Oliver, que ele viesse salv-la. Queria que ele a tomasse nos
braos, dando-lhe paz e segurana. Ento...
- Meu Deus! Meu mundo virou de pernas para o ar! - ela falou para a noite escura. - Vim para a Provena com a nica finalidade de me vingar de Oliver Savage e no
entanto... acabei me apaixonando por ele!  bem capaz que tenha arranjado um sofrimento maior!
Ela segurou a cabea entre as mos. Amava Oliver! Saber disso a fazia sentir-se em paz consigo mesma, porque agora seu comportamento, por vezes incoerente e infantil,
tinha uma razo de ser. Mas, ao mesmo tempo, no podia se entregar a essa paz, porque tinha uma meta a cumprir. Queria e ia se vingar dele. O fato de am-lo no
mudava nada. Tinha vindo para Provena para isso e era o que ia fazer.
Mas como? Nunca gostara de causar sofrimentos a quem quer que fosse. Onde iria encontrar foras para ferir algum que amava? Seu orgulho exigia uma reparao, mas
seu corao desejava coisa bem diferente.
E, agora, que admitia gostar dele, por que no ser mais sincera ainda consigo mesma? Quando aceitara vir com Oliver, no seria menos pelo desejo de vingana do que
pela vontade de estar perto dele? J no o amava ento, e desde que o conhecera, apesar de todo o mal e toda a decepo que ele a fizera sofrer?
Estava na poca to envolvida pela noite tenebrosa do passado que no soubera reconhecer as prprias emoes. Por isso procurara esconder os novos sentimentos sob
uma mscara de raiva e dio.
Leonore levantou e recomeou a andar pela estrada, em di-reo  casa. Seus pensamentos estavam to longe, to voltados para a descoberta que fizera, que caminhou
durante muito tempo, automaticamente, sem se aperceber do que fazia.
Quando comeou a gostar de Oliver? Queria determinar exa-tamente o momento. Quando o viu no escritrio do sr. Marshall? No, foi antes, com certeza. Por isso tinha
confiado nele, por isso havia lhe contado todo o drama que estava vivendo. S podia ser! Isso justificava a razo de seu dio, de seu desejo de vingana. A traio
tinha sido duplamente insuportvel porque o amara desde o primeiro instante que o vira!
Por causa desse amor tinha erguido aquela muralha ao seu redor, dizendo-se frgida. Como tudo se encaixava direito! Somente Oliver poderia quebrar, com tanta facilidade,
a camada de gelo que a envolvia como uma armadura. No foi sem mais nem menos, como pensava, que quase se entregou a ele na vspera. Pelo contrrio, fez aquilo porque
era o que desejava h anos!
E agora?
No podia deix-lo perceber que o amava! Jamais Oliver poderia saber como ela se sentia. Precisava fugir! Ela comeou a soluar desesperada. No era justo! Logo
quando descobria tudo isso, tinha que se reprimir novamente. Ele no a amava! Ele a estava usando!
Voltou a pensar em sua vingana. Estava muito perto do momento de poder concretiz-la. Tinha de pensar no quanto sofrera e fora humilhada. Isso lhe daria foras
para cumprir seu objetivo e esquec-lo. Era a nica maneira de se recompensar por seus sofrimentos passados, e a nica coisa a fazer no momento.
No entanto... faz-lo sofrer seria sofrer tambm. Destru-lo, seria destruir-se. No era isso o amor?
Precisava fugir! Estava vulnervel demais para dissimular.
Oliver acabaria percebendo o que ela sentia no corao e a... No poderia suportar que tivesse pena dela!
Leonore continuava andando pela estrada, sem ver sinal de vida. Estaria muito longe de casa? Chas j teria voltado e explicado o que tinha acontecido? Mas ento,
por que ningum voltava para procur-la?
Comeava a sentir-se exausta. No s de andar como de pensar e, sobretudo, pelo medo que estava sentindo. No conseguiria dar mais nenhum passo!
Parou na beira da estrada, sentou, segurou o rosto entre as mos e chorou at no poder mais.
                                                            CAPTULO VIII
Acordou sobressaltada. Tinha passado a noite  ali, na beira da estrada. Estava com o corpo dodo, as roupas amassadas, o cabelo todo despenteado.
O sol comeava a aparecer, tingindo o cu de cor-de-rosa. Ela tremia de frio. Por que ningum tinha ido procur-la? Chas j devia ter chegado em casa h muito tempo!
Tentou andar, mas suas pernas doam demais. Devia ter caminhado muito, antes de adormecer. Ainda estaria longe de casa?
Fez nova tentativa, mas as pernas estavam pesadas, os ps doloridos. Comeou a reconhecer a paisagem. Estava talvez a uns oito quilmetros da casa. No ia aguentar
vencer essa distncia! Por que Oliver no aparecia para ajud-la?
Lembrou de repente, com muito exatido, do sonho que tivera nessas poucas horas de sono. Estava num bosque cheio de rvores e, por isso, bastante escuro. Procurava
alguma coisa, desesperada por no encontrar. No podia dizer por que precisava tanto do que buscava com tamanha urgncia. S sabia que era alguma coisa importante,
sem a qual no poderia viver.
Andava de um lado para o outro no bosque cada vez mais escuro. Vasculhava todos os cantos, em sua busca incessante, gritando de ansiedade. Procurava debaixo dos
troncos cados, atrs dos caules rugosos, por entre as folhas espalhadas pelo cho... Depois seus olhos se erguiam para a copa das rvores, muito altas e inacessveis.
Era ali, perto do cu, que ia encontrar o que queria! Mas era to baixa, to pequenina, que no conseguiria alcanar nem os ramos baixos das rvores, quanto mais
aqueles do topo, to distantes...
Finalmente, via brilhar uma luz, ao longe, fraca a princpio, depois cada vez mais forte. Era isso que buscava: a luz! Precisava alcan-la para atingir a felicidade,
mas estava to distante!
At que a luz comeou a chegar at ela, brilhante, radiosa, intensa... acordou com a luz do dia em seu rosto.
Esse sonho teria um significado especial? O que era a luz que ela procurava com tanto desespero? Seria Oliver?
Leonore continuou andando pela estrada poeirenta. No se percebia do quanto faltava para chegar em casa porque estava perdida em seus pensamentos.
Foi ento que ouviu um carro se aproximando em grande velocidade. Ela parou e se virou. Um sorriso feliz apareceu em seu rosto quando percebeu que era a Ferrari
de Oliver.
Finalmente ele tinha vindo peg-la! Oliver era a luz que iluminava sua vida! Que satisfao saber que ele estava ali! Agora estava segura e salva.
Oliver passou por ela e parou o carro alguns metros adiante, com um guinchar de pneus. Leonore correu para ele, esquecendo a cansao e a dor nos ps.
- Onde esteve esse tempo todo? - Ele estava quase explodindo de dio. - Deve ter se divertido muito, enquanto eu passei a noite inteira indo e vindo de Arles, 
sua procura. Fui a todos os restaurantes e bares da cidade tentando encontr-la. Fui to bobo que imaginei que Chas a tivesse levado a algum lugar contra sua vontade!
Oliver parou para olh-la. Reparou na roupa amassada, no cabelo emaranhado, na expresso cansada.
- Vejo que me enganei completamente. E s olhar para voc para imaginar a noitada que teve. No entanto, como minha funcionria, deveria, pelo menos, ter telefonado,
avisando que ia passar a noite com seu amante. No teria me dado ao trabalho de sair por a, como um louco, somente para procur-la.
- Oh! Oliver... Precisei tanto de voc!
Oliver no escutava nada! Estava furioso e s conseguia falar, desabafar sua raiva.
-  Fiquei doido em casa, imaginando as piores situaes quando Chas ligou, avisando que no ia voltar e que encontraria minha irm em Marbella.
- Chas ligou? Avisou onde eu estava?
- Ligou s duas horas da manh! Nem pensei que voc fosse voltar para casa. Depois de tanta agitao com seu amante, no achei que tivesse disposio para tanto.
Foi bobagem me preocupar tanto com voc!
- Ficou mesmo preocupado comigo, Oliver?
-  Leonore, deixe de bancar a inocente. Claro que sim! O que esperava? Sei que j  maior de idade, mas duvido que tenha consentido que outro homem a tocasse antes
de Chas. Mas quando voc resolve fazer alguma coisa, mergulha nela at o pescoo, no ? S no entendo por que resolveu comear com um tipo como Chas! Que mau gosto!
Somente sua falta de experincia pode desculpar esse desastre.
- Oliver, oua...
- Com tanta gente no mundo... - Oliver recomeou a falar, como se ela no o tivesse interrompido.
Leonore olhou-o bem nos olhos e falou em tom alto e firme para que ele prestasse ateno no que dizia:
- No estive com Chas. No passei a noite com ele ou com ningum. Brigamos e ele me deixou na estrada.
- No sou responsvel por voc. No precisa mentir para mim. Se quiser dormir com Chas ou com qualquer outro idiota, o problema  seu! Mas no vou deixar de achar
que foi falta de considerao me obrigar a procur-la por todos os cantos da Provena!
Oliver estava fora de si. Leonore nunca o tinha visto assim.
- Entre no carro! - ele mandou.
Ela obedeceu. Oliver no a olhou nem procurou toc-la. No saberia dizer se estava tentando se controlar para no agredi-la ou se simplesmente a estava achando desprezvel.
Mal ela havia sentado, ele deu a partida, sem quase dar tempo de ela fechar a porta. Tinha percorrido alguns metros, quando Oliver tornou a parar.
Leonore estremeceu. Ia passar pela mesma cena que havia passado com Chas? Ela se espremeu em seu canto, pronta para se defender. Se ele a mandasse descer e andar...
no ia aguentar. Preferia ficar estendida na estrada at que algum resolvesse lev-la para casa. J tinha andado mais do que o suficiente por um dia. Mas... e se
ele comeasse a acarici-la, a querer um contato mais ntimo? Ela ergueu os olhos enormes, arregalados, cheios de medo.
- No se preocupe. Est segura comigo. No costumo fazer amor dentro de carros. E, mesmo que tivesse esse hbito... - Ele reparou no estado lastimvel em que ela
se encontrava e demonstrou claramente que jamais iria obrig-la a nada. - Quero apenas colocar-lhe o cinto de segurana.
Inclinou-se e prendeu a fivela. Durante um breve momento, Leonore sentiu o calor das mos em seu corpo. Seu corao comeou a bater mais forte.
Oliver endireitou-se no assento.
- Estou de to mau humor, que no vou conseguir dirigir com calma, por isso apertei seu cinto de segurana. Tenho medo do que possa acontecer. Prepare-se.
Deu novamente a partida.
-  Sou incoerente, no , Leonore? Mas tinha uma razo muito especial para desejar preserv-la por mais algum tempo. Estava esperando demais, no ? Mas... vamos
esquecer isso. Voc voltou e tem muito trabalho para fazer... isto ... se ainda tem energia suficiente para se dedicar ao trabalho!
Trabalharam mais do que Leonore podia esperar. Oliver tinha preparado muitas folhas de anotaes. E ela, que mal tinha dormido, atacou o servio com vontade, mas
na hora do almoo estava com uma tremenda dor de cabea.
Havia muita tenso no ambiente. Oliver se inquietava e andava sem parar de um lado para o outro, como se precisasse descarregar sua energia.
- J chega por hoje! Vamos almoar e depois acho melhor que v dormir, para se recuperar de ontem.
- Estou muito bem disposta e posso trabalhar novamente - ela mentiu. No ia dar o brao a torcer e admitir que estava exausta.
- Ento faa o que quiser. J disse que nosso trabalho est encerrado por hoje.
Leonore no retrucou. Foram para a cozinha, prepararam o almoo e comeram em silncio. Por ela, teria ido dormir. Mas no queria que Oliver percebesse como se sentia.
Ia aguentar firme e deitaria mais cedo, para ento se recuperar.
Foi at o quarto e vestiu o biquini. J se olhava no espelho com satisfao, agora reconhecendo as formas bonitas e femininas de seu corpo que antes procurava ignorar.
Nem ligava mais para o fato de usar uma coisa to pequena. Pegou a sada e foi para a piscina.
Quando chegou l, encontrou Oliver nadando com braadas vigorosas. Que pena que ele a tinha visto! Agora no poderia fugir. Ele saiu fora da gua e olhou-a com surpresa.
- No sabia que tinha vindo para c - ela explicou, num fio de voz. No conseguia desviar o olhar do corpo msculo e bem proporcionado que brilhava ao sol.
- Se est aborrecida por me encontrar aqui, finja que no me viu e continue sonhando acordada, pensando em seu amado Chas. No vou perturb-la.
Leonore tinha a resposta na ponta da lngua, para provar a ele que estava enganado. Mas de que ia adiantar? Oliver no acreditava nela! Sua vista foi ficando turva,
as lgrimas bro-   tando, uma tristeza imensa dominando seu corao. Virou-se  disposta a voltar para casa, mas no reparou nos chinelos dele que estavam perto da
cadeira. Tropeou e quase caiu. Ergueu   os braos para se apoiar e encontrou Oliver pertinho dela, pronto para ampar-la.
Sentiu vontade de abra-lo, de ficar encostada naquele corpo que tanto amava. Mas apenas murmurou um "obrigado", to baixinho que mais pareceu um gemido. Oliver
entendeu mal essa reserva. - No tenha medo. No vou toc-la.
Ela queria chorar mais ainda, gritar a plenos pulmes que ansiava por ele, que o queria, que o amava... Mas as palavras morreram em sua garganta.
Oliver levou-a at a espreguiadeira. Leonore recostou-se, fechou os olhos e esticou as pernas, tentando parecer relaxada. Na realidade, no conseguia deixar nem
por um minuto de ter conscincia da proximidade dele.
Por entre os clios espessos seguia todos os movimentos de Oliver. Viu que ele passava leo nos ombros e braos. Fechou os olhos para controlar o desejo que sentia
de toc-lo. Nunca achou que possua emoes to violentas.
- Se voc quiser passar, est aqui.
Do que Oliver estava falando? Estava to mergulhada em seus sentimentos que no o compreendia.
-  Saia do mundo da lua e volte para terra, Leonore. Perguntei se no quer o bronzeador.
- Obrigada. J passei antes de vir para c.
- Se incomoda de pass-lo em minha costas, ento? - Oliver entregou-lhe o vidro e deitou-se de bruos.
Por um instante, ela hesitou. Mas depois, comeou a espalhar o lquido pelo corpo de Oliver. A medida em que sentia seu corpo quente sob os dedos, ia fazendo movimentos
mais amplos e ritmados. Desceu pelas costas largas at chegar  cintura. S ento percebeu como ele estava tenso.
- O que houve?
Oliver virou-se fitando-a de frente.
- Por que no guarda seus carinhos para Chas? No gosto que me provoquem e voc no fez outra coisa desde que comeou a passar esse bronzeador em mim. Ainda no
sei se Chas foi um professor muito bom, ou se voc  uma aluna to excelente que aprende tudo num instante.
Levantou-se sem esperar resposta e mergulhou na piscina. Nadou com rapidez durante uns cinco minutos fazendo vrias idas e vindas. Leonore o olhava perplexa, sem
saber direito o que o tinha deixado to furioso. Ele saiu da gua pelo outro lado e foi direto para casa.
Ela estava preparando o jantar quando ele entrou na cozinha.
- No vou jantar aqui. Vou at Arles e no tenho hora para voltar. No precisa ficar me esperando.
Leonore jantou sozinha e foi para o quarto, O que adiantava, amar e no ser amada? Sentia-se ainda mais fria e vazia porque no conseguia extravasar seu amor!
Passou algum tempo lendo os artigos que Oliver tinha escrito. Ele era inteligente, culto, capaz de desenvolver bem vrios assuntos. Seus textos revelavam tambm
que era emotivo, generoso e estava sempre pronto a defender os mais fracos.
Ficou ainda mais infeliz. Por que no acreditava nela? Fora vtima da estupidez de Chas, passara uma noite de pesadelo e ainda tinha que enfrentar a raiva dele!
Mesmo assim, j no conseguia mais odi-lo. Talvez estivesse cansada demais para isso. S pensava em como seria maravilhoso se ele a amasse! Estranhamente, no sentia
sono! Estava exausta e... nada de conseguir dormir!
O rudo de um carro tirou-a de seus devaneios. Ele havia chegado! Depois de alguns minutos de completo silncio, ouviu- o chamar.
- Leonore... Leonore!
O que Oliver queria com ela? Por que no tinha entrado?
- Leonore... est acordada?
Ela chegou junto da janela. Oliver estava no jardim, olhando para cima.
-  Que bom que acordou! Pode descer e abrir a porta para   mim? No consigo encontrar minha chave.
- J vou.
Ainda bem que estava vestida! Mas... no era esquisito que Oliver estivesse sem a chave? Em geral era to ordeiro e orga-   nizado!
Ao abrir a porta, ela logo percebeu que ele esteve bebendo. Afastou-se um pouco.
- J est com medo? No estou bbado, se  o que pensa. Posso ter tomado umas e outras, mas no me afoguei em bebida.
- Quer comer alguma coisa? Posso preparar num instante.
- Minha fome  outra. No posso mat-la com comida. - Oliver deu uma risada curta. - No me olhe com tanta inocncia. Ns dois sabemos que j aprendeu muita coisa.
Agora v deitar, antes que eu comece a dizer tolices das quais possa me arrepender.
Leonore ficou em dvida, sem saber se devia ficar ou ir embora. Acabou subindo.
Logo depois, ouviu-o entrar no banheiro, onde comeou a abrir e fechar os armrios com raiva.
- Leonore, tem um comprimido para dor de cabea? - Ele apareceu na porta de seu quarto.
- Tenho. Vou pegar.
Ela levantou, ainda no escuro, e pegou a bolsa. Acabou encontrando um envelope ainda fechado. Saiu do quarto e viu Oliver, sem camisa, o jeans justo modelando seu
corpo atltico. Entregou-lhe o remdio e seus dedos se tocaram. Foi como se uma fasca eltrica os tivesse atingido.
-  Puxa, Leonore, se voc queria experincia, por que me evitou esse tempo todo?
Oliver no aguentou mais e a abraou com fora. Sua boca encontrou a dela e seus dedos, impacientes, comearam a abrir-lhe os botes do vestido, numa urgncia incontrolvel.
Uma onda de desejo enorme, devastadora, comeou a domin-la, fazendo com que perdesse toda a noo do tempo e do espao. Sabia apenas que precisava dele, que ansiava
por seu carinho, pelas sensaes que somente ele a fazia sentir. Abraou-o com ardor, at que ele se afastou o suficiente para olh-la bem no fundo dos olhos.
- Fui embora hoje  tarde porque sabia que, se ficasse, isso acabaria por acontecer.
Ele beijou-a de novo, apaixonadamente. Depois carregou-a para o quarto, deitando-a sobre a cama larga. Leonore suspirou. Estava junto da pessoa que amava, e j no
se preocupava nem um pouco em esconder seus sentimentos.
Oliver deitou-se ao lado dela e com uma delicadeza incrvel, foi lhe tirando o vestido. Nem por um segundo se envergonhou de ficar nua perto dele. Sabia agora que
o amor quebrava todas as barreiras que impediam as pessoas de se entenderem e de serem felizes. E percebeu mais, era um sentimento mgico, que a levava a superar
as prprias limitaes.
Oliver abriu o fecho do suti e os seios de Leonore apareceram sob a luz difusa do abajur. Ele abaixou o rosto e os alcanou com os lbios. Ela gemeu de prazer,
entreabrindo as pernas nas dele, abraando-o com fora.
Num instante ele se despiu e deitou-se sobre ela.
Seus corpos estavam to unidos que pareciam um s, e as bocas coladas falavam da paixo que os dominava. Os dois coraes batiam num ritmo louco, suas respiraes
se misturando entre murmrios abafados.
De repente, quando Leonore percebeu que Oliver ia possu-la, sentiu o velho pnico voltar. Retesou os msculos, enrijecendo-se inteira, e gritou alto!
- No... no! Pelo amor de Deus, no!... Oliver... socorro!... Oliver!
Ele a abraou com carinho, acalmando-a com palavras doces, at que ela se aquietasse completamente.
- O antigo pesadelo outra vez, no ? Teve a mesma sensao quando estava com Chas? Estou ficando louco com essa situao.
- Est enganado a respeito de Chas. Precisa acreditar em mim. No aconteceu nada do que est pensando. Apenas jantamos e discutimos quando voltvamos para casa.
Ele foi muito cruel e me deixou no meio do caminho. Andei quilmetros, horas a fio, desesperada, desejando loucamente que voc viesse me buscar. Acabei adormecendo
na beira da estrada. Foi uma noite de terror! - Ela chorava baixinho. - Jamais permitiria que ele tivesse qualquer intimidade comigo. No podia imaginar que o convite
dele tivesse segundas intenes, e muito menos que fosse ser to estpido e irresponsvel.
- Ento foi por isso que passei a noite toda procurando voc em todos os lugares! Desculpe-me, pequenina, fui um monstro com voc durante todo o dia! Como voc deve
estar exausta. - Ele beijava o rosto banhado de lgrimas. - Parece incrvel, mas eu quase ia fazendo de novo o que fiz h seis anos! No acreditei em voc, fui injusto
e insensvel. Devia ter visto que voc estava esgotada, precisando de carinho e proteo acima de tudo.
Ele deitou-se ao lado dela, segurando-lhe a mo.
- Um dia voc vai encontrar algum que a faa esquecer tudo isso, Bill Trenchard, sua me, eu, Chas, todos que a fizeram sofrer. Tenho certeza!
Ela quase gritou que no queria esquec-lo, que j tinha encontrado essa pessoa, que o amava. Mas... ele no gostava dela. De que adiantaria se declarar? Se Oliver
no tivesse bebido, no teria tido vontade de fazer amor com ela naquela noite!
- Leonore... o que diria, se eu lhe pedisse para ficar aqui com voc a noite toda?
Era o que ela mais queria! Amava Oliver, gostava at mesmo de seu temperamento explosivo e imprevisvel. Estar com ele era a realizao de seus sonhos! Mas no podia
lhe dizer isso!
- Eu... eu...
-  Compreendo. - A voz de Oliver soou ao mesmo tempo triste e distante. - No vou obrig-la a nada. Mas reconhea que sentiu algo muito forte hoje. S isso j mostra
que voc est superando seus problemas.
Ser que o tempo todo Oliver s pensava em suas experincias? Leonore teve vontade de bater nele, de gritar que no era um "problema" a ser estudado e resolvido,
mas um ser humano capaz de amar e sentir com extrema intensidade.
- Acho melhor voltar para seu quarto - disse apenas.
- Est bem. No se impressione. Voc se deixou levar pela magia do momento. Pode avaliar por que fiquei to preocupado quando saiu com Chas? No tive dvidas de
que ele pretendia lev-la para a cama.
Leonore ficou olhando para ele. Teria visto uma sombra de cime ou de dor no olhar daquele homem to enigmtico? Ele levantou e, por um instante, seu corpo ficou
iluminado. Como era bonito!
- Acho melhor sair de uma vez. Preciso dormir para produzir alguma coisa amanh. E voc tambm deve estar precisando dormir como nunca.
Pegou sua roupa que estava jogada no cho e saiu.
Leonore continuou acordada. Como poderia dormir, se seu corpo queimava de paixo?
Afundou a cabea no travesseiro. Estava rendida, irremediavelmente! Daria a alma para que ele sentisse por ela ao menos uma pequena parcela do amor que a inundava.
CAPTULO IX
Ao descer na manh seguinte, Leonore no viu Oliver. J estava coando o caf, quando ele entrou na cozinha, com a camisa aberta e os cabelos molhados!
Ergueu os olhos, sem jeito, encabulada pelos momentos de paixo que tinham vivido juntos.
Oliver percebeu seu embarao e sorriu. Puxou a cadeira e sentou-se  mesa, comeando a comer com vontade. Parecia estar se divertindo com a confuso dela.
Leonore suspirou. Aqueles momentos, que para ela tinham sido de extremo amor, de uma felicidade completa, para ele no passavam de experincias necessrias para
torn-la normal.
Procurou ocupar-se arrumando a mesa. Depois, foi pegar torradas no armrio. No podia continuar junto dele, ou seus sentimentos se tornariam to evidentes, que seria
impossvel disfarar.
Ouviu que Oliver empurrava a cadeira e, logo em seguida, dois braos fortes a rodearam, fazendo-a virar-se.
- No deve ficar envergonhada pelo que aconteceu ontem  noite. Fao idia de como deve se sentir, principalmente depois das palavras duras que eu lhe disse por
causa de Chas. Fui um bruto.
- Minha aparncia devia estar horrvel na hora em que me encontrou... - respondeu evasivamente, sem concordar nem discordar do que ele dissera...
- Eu estava louco da vida. No sei onde estava com a cabea quando acreditei no que aquele irresponsvel disse. Mas fiquei muito preocupado com voc, imaginando
o que poderia ter lhe acontecido.
- No houve nada, na realidade. Chas somente ficou muito bravo quando me recusei a maiores intimidades e eu acabei passando uma noite horrvel.
- Posso avaliar. Chas  um garoto e, alm disso, no sabia de seus problemas. Mas nunca deveria t-la deixado sozinha numa estrada deserta, longe de casa. No suporto
esse rapaz! - Oliver fez uma pausa. - Eu no tenho moral nenhuma para criticar algum depois do que fiz ontem  noite, no ?
Oliver soltou-a, andou pela cozinha, passou vrias vezes as mos nos cabelos e depois parou junto  janela, de costas para ela.
- Preciso lhe falar sobre ontem... Quero lhe explicar que...
- No h necessidade, Oliver. Essas coisas acontecem, principalmente porque conheceu meu passado e... Acho que foi inevitvel.
- Ainda bem que est encarando a situao dessa maneira. Oliver permanecia de costas para ela. Que pena! Preferia
ver a expresso de seu rosto, avaliar o que realmente se passava dentro dele.
Leonore sentia o corao doer. Gostaria de ser bastante corajosa para dizer-lhe, de uma vez para sempre, que no queria ser objeto de estudos e preocupaes, como
se fosse um animal raro de duas cabeas.
- Esqueci de lhe dizer. Amanh preciso ir a Nice. Vou sozinho.
- Ento deixe servio para mim. Posso aproveitar o dia para trabalhar bastante. - Ela se esforava por parecer natural, mas sua cabea fervilhava.
Por que ele tinha de ir sozinho? Talvez quisesse encontrar com alguma mulher, j que ela no conseguia satisfaz-lo.
-  No tenho nada preparado, Leonore. Estou na fase de pensar muito, de inventar as situaes, e no consigo escrever se no estiver inspirado. Alis, tenho estado
muito distrado com voc! - Ele sorriu com ironia. - Gravadores no oferecem esse perigo.
Ela tentou achar graa, mas no tirava da cabea que ele ia procurar outra mulher.
Durante alguns minutos ele ficou tomando o caf, devagar. Depois ps a xcara sobre a mesa, a expresso sria.
- Leonore... ontem  noite... Foi minha imaginao ou sentiu prazer com nossa intimidade?
Ela sentiu as faces em fogo. Como Oliver podia discutir esse  assunto com tanta calma e frieza? Precisava saber exatamente qual fora sua reao para coloc-la em
seu maldito livro?
- No sei... o que quer dizer com isso? Eu... Ele chegou mais junto dela.
- Voc estava apenas fingindo ou correspondeu aos meus carinhos?
A mente dela estava um caos. Deveria mentir ou contar a verdade? Ia conseguir falar sobre o que sentira sem confessar o seu amor? Era mais fcil dizer a verdade.
Se mentisse, cairia em contradio, porque no conseguia raciocinar direito.
- No estava fingindo. Mas...
- Mas interpretei mal suas reaes? De qualquer modo, estou contente. Sei o poder do desejo e, se voc j conseguiu senti-lo, estou, em parte, absolvido pelo mal
que lhe causei.
Ela no disse nada. No queria explicar que no era s desejo fsico o que havia sentido. Era amor, puro, total, eterno... Mas Oliver ainda tinha mais a dizer.
- Nunca se envergonhe de sua sexualidade, Leonore, mas tambm no deixe que ela dirija sua vida. Quando puder aliar esse prazer ao amor, ser uma mulher completa
e feliz. Ainda bem que conseguiu descobrir que  uma pessoa normal. Mas valorize sempre seu corpo e seus sentimentos. Numa poca como a nossa, de tanta permissividade,
saiba se preservar. - Ele parou e riu. - Estou parecendo um pai do sculo passado, tentando convencer a filha das vantagens de permanecer virgem at encontrar o
homem certo!
- Acontece que no  meu pai, Oliver. E estou bem consciente do lado ruim do sexo. Aprendi muito cedo, lembra?
Oliver voltou a ficar srio, os olhos sombreados por uma tristeza enorme. Parecia ter sido atingido por um golpe mortal.
Uma pesada tenso surgiu entre eles e de repente Leonore no aguentou mais. Com um grito angustiado, Fugiu da cozinha e correu para o quarto. Sentou na cama, os
joelhos dobrados e seguros pelos braos, o olhar perdido na paisagem bonita do
campo.
"Oliver que pense o que quiser. Ser que acha que sou uma adolescente que precisa ouvir sermes?"
O que a deixava magoada realmente no era isso, e sim saber que ele ainda no a via como uma mulher capaz de amar.
Durante o resto do dia permaneceram num clima de tenso. Oliver estava de mau humor, sarcstico e tambm muito quieto. Reclamava de tudo e, de vez em quando, a criticava
com impacincia. Ela ficou magoada, principalmente porque no dera motivos para isso.
Era a vez de Oliver preparar o jantar. Ele fez uma lasanha apetitosa, mas Leonore mal tocou em seu prato.
- No gostou de meu tempero?
- No estou com fome.
Ele tambm no comeu e foi para o bar. Serviu-se de uma dose de usque e comeou a tom-la em grandes goles. Leonore tirou a mesa, reparando que ele continuava bebendo.
-  No precisa me olhar desse jeito. Estou acostumado a beber e sei at onde posso ir.
Ela no disse nada, mas no conseguiu esconder a preocupao.
-  Ou est com medo de que, por causa da bebida, possa haver uma repetio do que aconteceu ontem  noite?
- Por que no? Voc tambm abusou da bebida ontem, no
foi?
- Tem muito o que aprender, minha cara. - Oliver riu com sarcasmo. - Se um homem precisasse da iluso da bebida para dormir com uma mulher, a experincia seria to
vazia que no valeria a pena faz-la.
Disse isso e ps um disco na vitrola. Normalmente, gostava de msicas suaves e orquestradas, mas dessa vez escolheu um ritmo agitado, dissonante e agressivo.
- Acho que vou deitar.
-  a msica que a est incomodando?
-  No - ela mentiu. O que adiantava dizer que aqueles sons a deixavam angustiada? - Estou cansada.
Leonore viu que Oliver tinha os olhos perdidos no vazio, o copo de usque rolando em suas mos. Deu meia-volta para sair e notou que havia um livro sobre uma das
poltronas. Pegou-o. Ia ler um pouco e depois tentaria dormir.
Foi para o quarto, tomou um banho quente se acomodou na cama. Abriu o livro e, para sua surpresa, era um daqueles que Oliver tinha comprado em Arles, escrito por
um psiquiatra ingls. Por curiosidade, comeou a folhe-lo.
A obra tratava principalmente de casos parecidos com o seu. Contava a histria de vrias experincias vividas por meninas ou adolescentes que tinham sofrido abusos
sexuais. Muitos eram casos de incesto, outros de violncias por parte de desconhecidos.
Leonore no podia mais parar de ler. Via situaes similares  sua desfilarem ante seus olhos. Embora cada pgina, cada palavra, lhe trouxesse  memria aqueles
momentos de pavor e sofrimento, no largou do livro durante horas.
Na parte final, o autor fazia diversas consideraes. Dizia que o primeiro passo na recuperao de pessoas vtimas de violncia ou estupro era recondicionar os sentidos
para que sentissem prazer na mesma situao em que antes houve apenas humilhao, dor e sofrimento.
Quanto mais lia, mais Leonore se convencia de que tinha sido vtima de um ataque bastante moderado. Tanto assim que sua capacidade de confiar no tinha sido completamente
destruda. Por isso conseguir confiar em Oliver. Por isso tambm achara que o odiava. Ele tinha abusado dessa confiana e a tinha trado com seu artigo no jornal.
Oliver devia ter comprado esse livro para compreender e analisar melhor a situao e as reaes dela. Estava realmente levando a srio o projeto a que se havia proposto,
de recuper-la para a vida normal. E tambm... estava levando a srio o romance, que pretendia escrever inspirado nela!
Fechou o livro. Tinha a impresso de que, finalmente, conseguira sair do tnel escuro onde havia se refugiado desde o dia em que Bill Trenchard se tornara seu padrasto.
Agora compreendia tambm que no ficou to destruda pela experincia que havia tido. A prova disso era que hoje sabia que amava Oliver, e que seu amor era adulto,
o de uma mulher como qualquer outra.
Feliz, Leonore conseguiu dormir. Mas... a leitura tinha despertado impresses adormecidas h muito tempo. Elas voltaram  sua mente na forma de um pesadelo em que
a figura do padrasto dominava a situao.
Um grito desesperado escapou de sua garganta, e outro e mais outro. Ela se agarrava s cobertas, incapaz de raciocinar. S quando a porta do quarto se abriu teve
conscincia de onde estava.
Oliver sentou-se a seu lado, acariciando-a com ternura.
- Que coisa, Leonore! Pensei que, no mnimo, estivesse sendo assassinada - brincou.
Ela estava assustada demais para aderir  brincadeira. Tinha os olhos arregalados e os lbios trmulos. Oliver reparou no livro que estava ao lado da cama e no
precisou perguntar o que estava acontecendo.
- Li at o fim, e acho que por isso tive um sonho horrvel, com meu padrasto...
- No pense mais nisso. Foi um pesadelo, j passou.  bom voc saber que no foi a nica a sofrer esse tipo de ataque. S precisa se lembrar agora de que isso faz
parte de um passado que no volta mais.
Ele chegou mais perto e quis abra-la, para mostrar que estava pronto para proteg-la. Leonore, no entanto, ainda sob a influncia de seu sonho, encolheu-se mais
na cama.
- Leonore! - Havia dor nessa simples palavra. Quando ela ia comear a ter certeza de que ele no era Bill Trenchard?
Percebeu a angstia nos olhos dele e encostou a cabea em seu ombro. Imediatamente sentiu-se segura.
- Desculpe, Oliver. Ainda estou chocada pelo pesadelo. Foi horrvel.
- Mas est bem agora?
- Humm... humm.
- Ento procure esquecer isso e de uma vez por todas. Sei que agora vai conseguir.
Oliver fez meno de levantar e sair, mas ela segurou-o pela camisa, puxando-o para mais perto.
- No me deixe sozinha. Por favor! Tenho tanto medo de comear a sonhar de novo!
Ele sorriu, como se ela fosse uma criana, pedindo alguma coisa impossvel.
- O que sugere? Quer passar a noite toda assim, juntinho de mim?
Leonore sentiu-se perturbada s em pensar nessa possibilidade.
- No v embora, Oliver... Por favor!
Ele segurou-lhe os pulsos frgeis para obrig-la a se recostar na cama e deix-lo sair. Mas, de repente, mudou de idia e comeou a acariciar as mos delicadas.
- Meu Deus! - ele exclamou, pouco antes de unir os lbios aos dela.
O beijo se prolongou por muito tempo, as mos dele subindo e descendo pelas costas de Leonore. Mais uma vez, ela entregava-se  delcia do momento.
Era como estar dentro de um redemoinho, em que no existia passado ou futuro, s o aqui e agora, e a necessidade imperiosa da satisfao do desejo. Ela tremia, antecipando
o prazer daquele ato de amor. No tinha mais restries, estava disposta a se entregar totalmente ao homem que j era o dono de seu corao.
Comeou a desabotoar a camisa dele, seus dedos se entrelaando nos plos escuros que cobriam o peito de Oliver. Ele terminou de abrir os botes e tirou a camisa,
jogando-a longe.
- Leonore... Leonore... - murmurava junto ao ouvido dela, enquanto lhe cobria o rosto e o pescoo de beijos leves e emocionados.
Ela arqueava o corpo, chegava mais junto dele, beijava-lhe o rosto, acariciava-lhe os ombros, suspirava e gemia. Precisava se expandir, pr para fora o amor que
sentia. Queria estar junto do homem que representava a vida para ela.
Ela foi descendo a mo at encontrar a fivela do jeans que Oliver vestia. Queria v-lo nu, sentir todo o seu corpo msculo.
Ele levantou de um salto, tirou o resto da roupa e voltou para junto dela. Trocaram muitos carinhos cada vez mais erticos e sensuais.
Leonore estava envolvida por uma sensao de magia e encantamento, desperta apenas para as sensaes maravilhosas que a invadiam. No pensava, no media consequncias...
A nica coisa que importava era Oliver.
- Leonore... Leonore! - Ele a beijava com ardor. - Nem posso acreditar que esteja livre, pronta para aceitar a vida! Sem traumas ou ressentimentos...
Ela se retesou. Por qu... ? Por que ele a tinha lembrado do que queria esquecer? Se, pelo menos, tivessem continuado a fazer amor, at chegarem ao xtase total!
Mas no! Oliver continuava a consider-la diferente. O que para ela representava a consumao do amor, para ele no passava de terapia!
O encanto tinha se quebrado novamente. Nada de emoes, prazeres ou xtases... apenas o raciocnio claro, frio e realista.
- Estou livre, sim. - Ela se afastou. - No precisa mais continuar. A experincia est terminada.
-  Experincia? De que diabo est falando? - Ele sentou, sem entender direito o que tinha acontecido.
-  Sabe muito bem do que estou falando, Oliver. Voc tem me usado, tem dirigido minhas emoes e reaes. Sei que pretende basear algum personagem em mim. Adivinhei
desde o incio que era isso que queria. Percebi pela maneira como perguntou sobre meu passado, querendo saber como eu me sentia... tudo!
-  No  verdade, Leonore. - Oliver comeou a andar de um lado para outro, passando a mo nos cabelos.
- No precisa fingir. Sei muito bem...
Leonore se interrompeu ao ver a expresso furiosa no rosto dele. Oliver tinha achado os artigos que escrevera e que ela havia colocado sobre a penteadeira.
- Por que isto est aqui?
Ele comeou a mexer nos artigos e acabou por descobrir o caderno onde ela fazia suas prprias anotaes. Sentou perto da luz e comeou a folhe-lo com interesse.
Leu algumas linhas, virou as pginas, leu mais. Depois virou-se para ela, os olhos cheios de desprezo e raiva.
- E voc ainda consegue me acusar de tentar us-la? O que quer dizer isto?
- No  o que pensa. Posso explicar... - Ela tentou se apoderar do caderno, mas Oliver foi mais rpido, colocando-o fora de seu alcance. Ele tornou a ler mais um
pouco, sua expresso se tornando cada vez mais dura.
- S agora chegamos  verdade. Ento veio para c com a firme inteno de me destruir, de me espionar!
Leonore sacudiu a cabea e tentou pegar o caderno de novo.
- No adianta mentir! Est tudo aqui, escrito com sua prpria letra.
O que ela podia dizer? Tinha mesmo escrito aquilo porque, na ocasio, era o que sentia. Mas agora a situao era diferente. Sentia-se adulta e o amava e isso alterava
tudo. Mas... o que adiantava dizer? Ele no ia acreditar!
- E pensar que eu quase... Voc foi boba, Leonore. Est to cega por causa de preconceitos e desconfianas que no percebeu que tinha uma arma muito melhor para
se vingar do que tentar me desacreditar perante a opinio pblica. - Ele levantou e a observou calado, para em seguida completar: - Publique isso, faa o que quiser.
No ligo a mnima. Sinto apenas ter me enganado tanto sobre voc.
Saiu do quarto antes que ela pudesse responder. Leonore estava arrasada. Sentia que tinha cometido um erro imperdovel. Tinha sido idiota! No deveria ter escrito
nada! Se sabia que o amava, deveria ter destrudo o caderno, antes que ele pudesse causar um desastre como aquele!
Quando levantou na manh seguinte, Oliver j tinha ido para Nice.
No quis tomar caf. Estava nervosa demais para comer.
Ficou andando pela casa, imaginando se aguentaria continuar a trabalhar para ele. Era impossvel!
O barulho de um carro chegando fez com que ela se aproximasse da janela. Seu rosto se iluminou: era Elizabeth, e sem Chas.
- Que surpresa agradvel! No sabia que ia voltar to cedo.  pena que Oliver no esteja. Ele foi para Nice hoje bem cedo, e s volta amanh.
- Estou aqui de passagem. Precisei voltar porque meu sogro no est passando bem. Nem vou esperar por Oliver. Quero ir logo para casa.
- Entrem, ento. Vou preparar o almoo para as crianas. Todos desceram do carro.
-  Mame, podemos ir para a piscina, enquanto fazem a
comida?
- Est bem, mas no demorem. - Elizabeth riu vendo os gmeos e Ana correrem para pr o maio. - Richard e Chas ficaram na Espanha, em casa de amigos. A propsito,
Leonore, sinto muito pela maneira desagradvel com que Chas se comportou. Ele acabou contando a verdade, quando estvamos em Marbella.
- No se preocupe com isso, Elizabeth. - Um plano estava se formando na mente de Leonore. E se aproveitasse a carona e fosse para casa com ela?
Comeou a pensar rpido. Oliver no ia permitir que ela continuasse ali, nem havia mais ambiente para trabalharem juntos. No seria melhor ir embora antes que ele
voltasse? Poderia evitar momentos desagradveis se partisse agora.
- Vai voltar direto para a Inglaterra, no , Elizabeth?
- Vou sim e quanto mais cedo, melhor.
- Acha que tem um lugar sobrando no carro? Gostaria de ir com voc.
- Que deciso rpida! O que aconteceu? Oliver sabe que vai
embora?
- No sabe, mas no creio que se incomode. Tivemos uma briga feia e o melhor  eu ir embora imediatamente.
- Melhor para voc... ou para ele? E o livro?
- J dei elementos suficientes para ele elaborar a histria. - Ela no escondia sua amargura. - Como todos os outros, esse livro tambm ter muito sucesso. S que
jamais vou compr-lo.
- Vamos sentar. Acho que precisamos conversar com calma. Leonore no era de se abrir com as pessoas, mas sentia um
peso imenso no corao e seria um alvio poder desabafar com algum. Contou o que tinha acontecido, embora no mencionasse os detalhes da troca de carinhos. Elizabeth
ouviu sem interromp-la.
- Acho que est enganada. Ele no a usaria dessa maneira. Conheo meu irmo, e sei o quanto ele sofreu quando lhe causou tantos problemas. Durante esse tempo todo,
ele sonhou em poder reparar o mal que causou. Oliver nunca se abriu comigo, mas sei que a procurou por todos os lados. Se quiser saber minha opinio sincera, acho
que meu irmo est apenas tentando ajud-la a vencer a crise.
- Ele poderia me ajudar de outra maneira, Elizabeth, e no espionando minha vida, avaliando minhas reaes...
- Talvez... mas minha explicao  bem diferente. Ele no estar apaixonado por voc?
- No... - Leonore suspirou, triste por ter que admitir que isso no acontecia. - Oliver no me ama, tenho certeza.
- Mas voc gosta dele, no  verdade? E por isso que quer ir embora? No acha que seria melhor se ficasse e conversasse abertamente com ele?
- No poderia agir assim. Se no quiser me dar carona, no tem importncia. Posso pegar um txi para Aries e depois...
- Se est mesmo decidida, poder vir conosco, sem dvida. Mas no quero nem pensar no que Oliver vai dizer quando souber que a ajudei a fugir!
Leonore riu. Sabia que no era fcil enfrentar Oliver zangado. Mas... ele ficaria? Comearam a pensar no almoo, que num instante ficou pronto.
Quando Leonore subiu para arrumar a mala, estava apreensiva, uma sensao de perda e vazio dominando sua alma. No veria Oliver de novo! Teria foras para aguentar?
Desceu e escreveu um bilhete. Explicou que, em vista das circunstncias, tinha achado melhor ir embora. Fechou tudo, entrou no carro e procurou no olhar para trs.
Elizabeth no tocou mais no assunto, embora a observasse com curiosidade.
Fizeram uma viagem tranquila e, bem mais tarde, depois de se despedir de Elizabeth e das crianas, sentiu uma tristeza enorme. Inclusive por Elizabeth. Era uma pena!
Se a situao fosse outra, poderiam vir a ser boas amigas.
                                                          CAPTULO X
Leonore abriu a porta do apartamento, depois de mais um dia de trabalho. Como era bom chegar em casa! Gostava de seu cantinho, ali sentia-se bem e feliz. Tirou o
casaco, acendeu a lareira e sentou diante dela, aproveitando aqueles momentos de tranquilidade.
Recostou a cabea e relembrou tudo que tinha feito desde que voltara de Arles, h seis meses. Na ocasio, estava desesperada e infeliz! Ainda bem que tinha resolvido
procurar emprego.
Teve muita sorte ao ser contratada como secretria de um diretor de cinema. Era um emprego temporrio, mas lhe deu a oportunidade de ir para a Itlia e conviver
com gente diferente. Se quisesse, poderia ter sado com um rapaz cada noite. Mas preferiu t-los como amigos e nada mais.
No era mais aquela moa cheia de preconceitos e medos. Conversava normalmente com os rapazes e sabia que eles a achavam atraente. Estava ainda mais bonita, agora
que ela sabia se valorizar usando roupas elegantes e, sobretudo, encarando a vida com naturalidade. Aqueles meses na Itlia tinham sido perfeitos. Ficara desinibida,
continuara a usar o cabelo constantemente solto, mas com um corte bem moderno.
Tinha aproveitado os fins de semana para conhecer o pas e aproveitar as praias. Ainda estava queimada, embora j estivesse quase no inverno.
Quando voltou, aconteceu o melhor. Comprou este apartamento, confortvel e aconchegante e o decorou com muito bom gosto.
Agora trabalhava para uma grande cadeia de lojas. Sabia que o emprego tambm era temporrio, mas j traara alguns planos. Escrevera para os antigos patres, da
Marshall & Marshall, perguntando se poderia voltar para l. Quem sabe? S queria ver o que o sr. Marshall acharia da nova Leonore!
Realmente, tinha conseguido sair de sua concha. Agia naturalmente, no tinha mais aqueles pesadelos horrveis e vivia como uma garota de sua idade. Saa com rapazes
e at trocava beijos com eles, mas nenhum lhe despertava aquela sensao intensa que havia conhecido com Oliver Savage.
Ele realmente tinha marcado sua vida, no s por livr-la de velhos tabus e desconfianas, como por lhe ensinar sobre o amor. Seu corao jamais poderia pertencer
a outro homem. E... j que no podia t-lo... no seria de ningum mais.
Ela suspirou. J estava de novo perdida em seus devaneios. O melhor seria jantar e assistir  televiso. Tinha sido convidada para uma festa, mas achou melhor no
ir. Como levantar cedo no dia seguinte para trabalhar?
Foi at a cozinha, preparou uma omelete e foi comer diante da televiso. Estava vendo um programa de entrevistas que parecia ser o melhor da noite.
O apresentador falava sobre seus convidados. Leonore mal prestava ateno at que a cmara mostrou o rosto de Oliver Savage.
- Meu prximo convidado dispensa apresentaes. Seu trabalho  seu carto de visita. Senhoras e senhores, o ganhador do prmio Maundele desse ano: Jonathan Graves!
Ela fixou os olhos no vdeo, incapaz de continuar a comer. Olhava para o rosto bonito de Oliver, sentindo o corao bater alucinadamente. Ele estava de terno e gravata,
mais charmoso do que nunca! Ela ficou to perdida admirando aquela viso inesperada que perdeu o incio do dilogo.
- Agora, sr. Graves, gostaramos que nos falasse a respeito de seu ltimo trabalho, que foi premiado.
- No poderia descrev-lo em meia dzia de palavras. Posso apenas afirmar que era uma coisa que precisava escrever.
- Parece que fala dele como se lhe tivesse servido de tratamento para alguma dor muito forte.
- Se foi isso, no deu o resultado esperado.
A entrevista continuou por mais alguns minutos, at que a cmera focalizou outro convidado. Leonore ainda ficou diante da televiso para ver se via Oliver de novo,
mas ele no apareceu mais no vdeo.
Por mais que quisesse afirmar que estava mudada, Leonore sabia que uma coisa importante permanecia a mesma. Continuava apaixonada por Oliver e jamais deixaria de
estar.
Dias depois, recebeu uma carta de seus antigos patres. Com muita amabilidade e gentileza, lhe diziam o quanto tinham apreciado seu trabalho, mas naquela ocasio
no tinham nenhuma vaga em seu quadro de funcionrios. Que pena! De qualquer forma, ainda estava empregada, mas teria de procurar outra colocao para breve.
Uma tarde, no trabalho, viu uma grande movimentao no departamento de livros e discos da loja.
-  O que est havendo por aqui? - perguntou a uma funcionria.
- Estamos esperando o lanamento de dois livros novos. Um deles foi escrito por aquele autor jovem, Jonathan Graves, que apareceu um desses dias na televiso. Viu
o programa? Ele  incrvel! No vai comprar o livro? Dizem que  timo.
Leonore voltou para seu lugar. No ia ler o livro coisa alguma. No queria se martirizar, lendo a respeito de si mesma. Mas, no dia seguinte, quando saa para almoar,
viu tanta gente com um exemplar na mo que no resistiu e resolveu levar um tambm. A sala estava repleta e quando ela chegou junto da prateleira que apresentava
o novo lanamento, ficou paralisada de susto. Oliver estava l em pessoa, autografando seus livros!
Sentiu o sangue gelar em suas veias, no conseguindo tirar os olhos dele. Por um breve instante Oliver levantou o rosto e pareceu reconhec-la, mas voltou sua ateno
para os fregueses. Mais que depressa, Leonore se afastou dali. Esperava que ele no a tivesse visto.
O Natal estava se aproximando e com ele o tempo frio. Leonore no se envolveu muito pelo clima festivo, mas comprou alguns presentes. Foi convidada para duas ou
trs festas em casas de amigos e, embora no pudesse aceitar todos os convites, mandaria uma lembrancinha para os mais chegados.
Recebeu tambm um convite para juntar-se ao grupo com quem trabalhara na Itlia, e que estava agora em Gstaad. Insistiam para que fosse passar as frias de fim de
ano com eles.
No foi. Leu uma notcia que Oliver estava na Sua, praticando esportes de inverno. Seria muito arriscado ir para l na mesma poca.
Mas pouco antes do Natal, encontrou em sua casa uma carta com carimbo de Dorset. Tinha sido enviada para Marshall & Marshall e eles a haviam encaminhado para ela.
Espantada, abriu-a e viu que era de Elizabeth. Provavelmente soubera por Oliver, que ela havia trabalhado com o sr. Marshall e que ele deveria saber seu novo endereo.
Na carta muito amvel e carinhosa, Elizabeth a convidava para passar o fim de ano com eles, quando dariam uma festa bem informal.
"No precisa se preocupar com Oliver, porque ele est na Sua. No haver perigo de encontr-lo. Gostaria muito de estar com voc de novo", dizia.
Leonore sabia que seria mais seguro recusar, mas morreu de vontade de estar com Elizabeth e saber alguma coisa sobre Oliver. Sentou-se e, no mesmo instante, respondeu
dizendo que teria imenso prazer em ir.
A semana seguinte foi difcil. As vezes ficava excitada, outras deprimida. No ia ver Oliver, mas s a perspectiva de saber dele, e estar com a famlia que ele gostava
tanto, j a enchia de uma certa euforia.
Resolveu ir de carro. J havia nevado, mas a previso do tempo era de cu claro e sem novas tempestades. Comprou um vestido elegante para a ocasio, preto, de seda,
com uma saia bem rodada por camadas superpostas de tecido. As costas eram abertas e, na frente, tinha um pronunciado decote em V. Se, por acaso, Elizabeth mencionasse
sua visita a Oliver, poderia dizer que ela estava linda e muito bem vestida.
Elizabeth mandou outra carta, explicando como devia fazer para chegar l. Contou que a casa era grande, herana de famlia, e que embora desse muito trabalho para
conserv-la em ordem, era cheia de lembranas deliciosas. Disse tambm que estavam muito felizes por contar com a companhia dela.
Leonore chegou na casa de Elizabeth no meio da tarde. Assim que ouviram o barulho do carro, os gmeos apareceram falando ao mesmo tempo. Richard veio logo depois,
parecendo mais adulto e mais bonito ainda. Era bastante parecido com Oliver e quando fosse mais velho ia deixar muitos coraes palpitando por ele.
-  Entre, minha querida. - Elizabeth a abraou. - Meu marido teve de atender a um chamado mas volta j. Obstetra  assim mesmo. Nunca se sabe a que horas vai precisar
fazer um parto.
Entraram num bonito hall com piso de pedras e depois foram para a sala. Havia brinquedos espalhados por todos os cantos, alm de casacos e gorros.
- Minha casa est um caos. Normalmente fica em ordem, mas minha governanta foi passar o fim do ano com a famlia e tenho de dar conta de tudo sozinha.
- Ento me diga o que fazer para ajud-la na festa. Espera muitos convidados?
- Bem... no sei. No tenho muita certeza ainda - Elizabeth desconversou. - Vamos subir que quero lhe mostrar onde vai ficar. Preparei o quarto de hspedes para
voc. Infelizmente no ver Ana. Ela foi passar o Ano Novo em casa de amigos.
Entraram num quarto grande e alegre, com cortinas e colcha floridas.
- Que maravilha! - Leonore correu os olhos pelas paredes claras, e os mveis de extremo bom gosto.
-  A casa  muito antiga e foi de meu sogro. Pertence  famlia h muitos anos.
Leonore foi at a janela e viu os campos, em volta as rvores copadas, e um riozinho ao longe.
- Um lugar lindo, Elizabeth. Voc  feliz por poder morar aqui.
- Tambm gosto muito. Bem, agora vou deix-la arrumar suas coisas. Quando estiver pronta, desa para tomarmos ch e conversarmos um pouco antes do jantar. Teremos
apenas a
famlia, hoje.
Leonore lavou o rosto e as mos, penteou o cabelo, desfez a mala e desceu. Encontrou a amiga na sala, diante da lareira
acesa.
-  Chegou na hora certa, acabei de fazer o ch. Venha me contar por onde andou. Sabe que  uma pessoa muito difcil de
se encontrar?
Leonore lhe contou sobre seu trabalho na Itlia e o que fazia
atualmente.
- Tudo isso lhe fez muito bem. Est bonita e desembaraada. Oliver vai ficar contente de saber. Ele tem se preocupado muito com voc.
- No h razo para nenhuma preocupao.
Leonore abaixou os olhos. No queria que Elizabeth percebesse como estava vermelha. S de ouvir falar em Oliver sentia o corao bater mais forte, o sangue ferver.
Vivera momentos extraordinrios com ele e, por mais que tentasse expuls-lo de seu pensamento, no iria consegui-lo jamais.
- Ento tente convencer Oliver disso. No pode avaliar como ele ficou bravo comigo por t-la ajudado a ir embora.
- Sinto muito ter causado problemas, Elizabeth. No entanto, achei que ele tinha terminado as experincias comigo e que no ia mais precisar de mim. No havia motivos
para ficar l.
- Sei o que aconteceu, Leonore. Estava apaixonada por ele e achou que o melhor era fugir. Mas talvez fosse inevitvel!
- Acha que foi por causa de meu passado que me apaixonei por Oliver? Est enganada, mas confesso que a princpio tambm pensei assim. Achei que o que sentia era
uma espcie de reao, porque desde o primeiro dia em que o vi confiei nele. Foi quando me desiludi. Ele me traiu, me expondo ao mundo como uma leviana. Mas quando
o encontrei de novo e soube das razes de seu modo de agir, compreendi que o amava e que o suposto dio que sentia no era seno uma forma de me defender.
- Nunca lhe ocorreu que o amor que sentia pudesse ser correspondido?
-  No, claro que no! Oliver sentia pena de mim, tenho certeza. Ajudou-me muito e foi bom para mim, mas quanto a amar. No! Ele estava interessado em mim apenas
como uma experincia nova, interessante.
- No entanto... ele quis fazer amor com voc!
- Mas acho que fez o papel de um mdico conduzindo uma terapia.
- J leu o ltimo livro dele? O que foi premiado?
- Ainda no. Ia compr-lo, mas depois mudei de idia. Oliver est na Sua agora, no ?
-  Ele passou por aqui no Natal e... - Elizabeth prestou ateno no barulho de um carro que se aproximava. - Deve ser Graham. - Ela levantou e foi olhar pela janela.
Um sorriso bonito iluminou-lhe o rosto. -  ele mesmo.
Leonore ficou observando Elizabeth. Devia ser muito bom sentir-se assim, feliz, depois de tantos anos de casamento.
Graham Turner era um homem alto e forte. Entrou na sala sorridente e deu um forte abrao na mulher. Cumprimentou Leonore, fez alguns comentrios sobre o beb que
tinha nascido e sentou na cadeira, cansado.
- Minha profisso tem suas vantagens. Fico exausto, acordo no meio da noite, mas tenho sempre a emoo de ajudar um pequenininho a nascer. Para mim,  um instante
mgico. Como , Elizabeth, no vai oferecer o jantar a seu marido faminto?
- J est quase pronto. Fique um pouco aqui enquanto vou para a cozinha. Chamo vocs em dez minutos,
O jantar foi perfeito. Leonore gostou no s da comida, como da companhia daquela famlia to alegre. Os gmeos falavam o tempo todo, Richard conversava com o pai
sobre a faculdade, todos riam e comiam com prazer.
Quando terminaram, ajudaram Elizabeth a tirar a mesa e a colocar a loua na lavadora de pratos. Voltaram para a sala e ainda ficaram conversando durante um bom tempo.
J passava das onze horas quando foram se deitar. Leonore estava contente. Fizera muito bem em aceitar o convite de Elizabeth.
Acordou com o sol batendo em seu rosto. H muito tempo no dormia to bem. Teria sido o ar puro do campo ou a companhia agradvel que a deixavam to bem disposta?
Provavelmente os dois.
-  Bom dia, mocinha. - Elizabeth apareceu na porta do quarto. - Dormiu bem?
-  Maravilhosamente. S acho que dormi demais, no foi? J deve ser tarde.
-  Aproveite os feriados e no se preocupe com o relgio. Agora tem uma coisa que preciso lhe falar e estou meio sem
jeito.
- Qual  o problema?
-  que eu vou precisar sair hoje. Uma prima de Graham est na cidade e quer muito nos ver. Pretendemos sair logo depois do almoo, passar a tarde com ela e voltar
 noite. Voc se incomoda de ficar sozinha por algum tempo?
- Claro que no. Pode deixar, vou me manter ocupada. No quer que eu comece a preparar alguma coisa para a festa?
- No... eu... no se preocupe com isso. Tem certeza de que no se incomoda de ficar sozinha?
- No, claro que no. Fique  vontade.
- timo. Voltaremos  noite, certo?
- Est bem. Talvez eu d umas voltas por a. No  sempre que se tem oportunidade de estar no campo.
-  Mas... acho... isto , no... - Elizabeth no conseguia completar a frase.
- Sim, no... ora, o que foi, Elizabeth?
- Bem, ouvi a previso do tempo e parece que vai nevar. Pode se perder, se tudo ficar branco de repente.
- Acha mesmo? Ento vou pensar em outra coisa - Leonore no queria dar motivo para preocupaes. Mas era o cmulo terem medo de que ela no encontrasse o caminho
de volta. Enfim... procuraria uma outra maneira de se distrair.
Foi conversar com os gmeos. Talvez pudesse jogar uma partida de pingue-pongue. Mas eles tambm tinham um programa a cumprir. Iam at a cidade encontrar uns amigos.
Ser que todo mundo estava fugindo dela? Ainda podia tentar Richard.
Foi conversar com o rapaz. Muito encabulado, ele contou que tinha combinado passar a tarde na casa da namorada. No tinha mesmo jeito. Ia ficar completamente sozinha.
Bem, precisava usar a imaginao para descobrir como passar o dia. Resolveu subir e se cuidar, pois tinha tempo de sobra. Daria para fazer as unhas, lavar a cabea,
e passar o vestido da festa, se fosse necessrio.
Esmaltou as unhas e, enquanto elas secavam, leu uma revista. Depois separou o vestido novo e viu que ele estava impecvel. Uma coisa a menos para fazer. Bem, s
lhe restava lavar a cabea.
Tomou um banho gostoso e estava secando os cabelos quando ouviu o barulho de um carro se aproximando. Olhou o relgio. Era muito cedo para Elizabeth voltar. Quem
seria? Talvez al-   gum procurando a ajuda de Graham. Era melhor descer.
J estava com a mo na maaneta, quando ouviu que uma chave era introduzida na fechadura. Ento, era algum da casa! A porta se abriu e ela quase caiu para trs.
- Como vai, Leonore? - Oliver falou, sem demonstrar surpresa por v-la ali.
- Bem... Pensei que estivesse na Sua! - Ela se encostou no batente. Sentia as pernas moles demais para se sustentarem sem apoio.
- Sei disso. Vamos l para dentro? - Ele pegou-a pelo brao e a levou para a sala. - Voc  uma figurinha difcil, no?
- No sabia que estava me procurando.
- Ora, Leonore, sabia que tnhamos muito o que conversar.
- No vamos tocar no que j passou, Oliver. Se est com receio que eu publique o que escrevi naquele caderno, no precisa se preocupar. Foi um erro estpido que
cometi. Estava muito amargurada com voc e tentei descobrir uma maneira de mago-lo, de atingi-lo numa coisa que lhe fosse importante. Mas... logo vi que era uma
infantilidade e joguei tudo fora. Jamais prosseguiria naquele plano idiota.
- Ento... no me odeia?
- No... - Ela baixou os olhos e viu que havia um exemplar do ltimo livro dele sobre a mesa. Pegou-o, para disfarar o tremor das mos.
- J leu esse romance?
Ela sacudiu a cabea, negando.
- Gostaria muito que lesse, mas no agora. Primeiro temos que conversar. Por que fugiu de mim, Leonore?
- No fugi... deixei um bilhete.
- Fugiu quando estava na Frana e tambm quando me viu na livraria, naquela tarde de autgrafos. Tentei cham-la mas voc desapareceu.
Ento ele a tinha visto!
- Por que precisava falar comigo, Oliver? No tinha terminado suas experincias? O livro no estava pronto, publicado e at premiado? E a misso a que se props,
tambm no estava cumprida? Queria me transformar numa mulher sem "grilos" e conseguiu.
-  Experincias? Do que est falando, Leonore? - Fitou-a com intensidade, o olhar percorrendo-lhe o corpo. - No posso me concentrar com voc s de roupo na minha
frente.
Leonore, instintivamente, apertou mais o cinto do roupo.
- No sabe os maus momentos que passei procurando voc. Queria lhe dizer que lhe amo, precisava dizer que no consigo viver sem voc! - Oliver a apertou nos braos
e sua boca encontrou a dela, num beijo cheio de emoo que exprimia melhor do que tudo a saudade imensa que havia sentido.
Ficaram assim por um longo tempo, ela se concentrando apenas no fato de que ele estava ali, junto dela, de novo! Correspondeu ao beijo com todo ardor.
- Leonore, no pode me beijar assim se no sente nada por mim! Tem que haver alguma coisa nesse seu corao, algum pedao ao menos, que me queira.
-  Como pode duvidar disso, Oliver? Ento no sabe que meu corao inteiro  seu?
- Minha querida!  bom demais para ser verdade!
- Amo voc, Oliver, foi por isso que fugi. Achei que estava me usando e no suportei a idia de am-lo sem ser amada.
- Quanto tempo perdido! No comeo eu quis mesmo s ajud-la. Achei-me nessa obrigao. - Eles sentaram no sof, muito juntos, mos nas mos. - Tinha um grande sentimento
de culpa por todo o sofrimento que lhe causei. Quando finalmente a reencontrei no escritrio do Marshall, achei-a to marcada e sofrida, to assustada, que no sabia
o que fazer para me redimir. Quando me props trabalhar juntos, compreendi que havia chegado a hora de tentar.
- No se martirize mais, Oliver. Voc teve os seus motivos e o tempo lhe fez amadurecer, ver que estava errado.  isso que importa.
- Depois que Peter morreu, fiquei de mal com o mundo. Em cada moa bonita eu via uma mercenria que merecia sofrer. Mas o tiro saiu pela culatra, porque imediatamente
me dei conta de que a amava.
- Oliver, tambm descobri que lhe amava h muito tempo, mas tinha tanto medo! Voc me examinava como se eu fosse um caso a estudar, media minhas reaes e...
- Foi essa a impresso que teve? Desculpe, minha querida. Estava to empenhado em refazer sua vida, em recompens-la pelo mal que lhe causei, que devo ter agido
errado de novo. Queria que voc tornasse a sentir o gosto pela vida, que pudesse vibrar e se sentir como uma moa normal, sem medo ou restries. Mas estava apaixonado
e tambm sofria, muito. Quase morri de cime quando saiu com Chas! No conseguia passar um minuto a seu lado sem desejar t-la em meus braos, era uma tortura. Amei
voc desde o incio, Leonore.
-  Meu amor! Quanto sofrimento intil! Voc me amava e eu lhe amava, mas no conseguamos confessar isso um ao outro. Voc sofreu porque sa com Chas, e eu resolvi
sair com ele porque tinha lido as anotaes que fez sobre meu comportamento depois daquela primeira noite e... estava to magoada!
- No escrevi aquilo para usar suas reaes em meus personagens. Estou to acostumado a tomar nota de tudo, que fazia isso porque  meu jeito de ser, porque sou
escritor, enfim. Simplesmente. A ltima coisa que queria no mundo era us-la!
- Eu devia ter imaginado, mas ento no me parecia que fosse assim. Tambm eu tenho que pedir desculpas por t-lo julgado mal.
Oliver pegou o livro que estava esquecido no sof.
- Quero que leia esta histria, Leonore. Voc aparece nele e eu tambm, mas no da maneira como imagina.  a nossa histria, de nossos encontros e desencontros.
Para mim, foi a melhor coisa que j escrevi at hoje. Quero saber sua opinio. Vai ver que no a usei, porque estava terrivelmente apaixonado e s podia querer o
melhor para a mulher que representava tudo para mim.
Trocaram mais um beijo apaixonado.
- Oliver... ainda tenho uma dvida. Gostaria de falar sobre ela, e depois nunca mais tocar no assunto. Est bem?
- Claro, meu amor.
- E aqueles livros de psicologia?
- Precisava deles para saber qual a melhor maneira de agir, para traz-la de volta  vida. No sou mdico nem psiclogo. Queria uma orientao para mexer com seus
sentimentos. E foi bom, porque deu certo.
-  Ah, Oliver, eu lhe amo! Chega de dvidas e segredos! Prometo no tocar mais no que j passou.
-  Isso mesmo, Leonore. Temos de pensar no futuro, que parece que vai ser maravilhoso. O passado j ns fez sofrer mais do que devia. Por falar em futuro, quando
vamos casar? Quero que seja o mais breve possvel.
Leonore riu.
- Voc ainda nem me pediu em casamento! Como sabe que
vou aceitar?
-  Ainda no? Ora, que distrao! Quer casar comigo? Eu lhe amo muito e quero que seja minha mulher, para sempre.
- Oh, Oliver! Quero, mil vezes sim.  a coisa que mais quero
no mundo!
Puseram todo o amor que sentiam num abrao imenso, cheio de paixo. O que parecia to impossvel para ambos agora tinha se realizado. Todas as barreiras entre eles
haviam cado de uma vez, e agora iriam viver uma vida juntos!
- Gostaria de casar com voc hoje mesmo, Leonore, mas sei que Elizabeth vai insistir numa cerimnia na igreja, com champanhe e festa. No podemos decepcion-la,
concorda?
- Caso como voc quiser, Oliver. Alm disso, Elizabeth teve um papel importante nisso tudo. Afinal de contas, estou aqui porque ela me chamou.
- Sabe, custo a acreditar que tenhamos superado todos os nossos desentendimentos. Quanta felicidade! Assim que estivermos casados vou lev-la de volta a Provena,
vai ser maravilhoso.
Enquanto falava abria o robe de Leonore, olhando com admirao o corpo bonito. Ela sentia-se feliz em saber-se bonita, jovem, atraente e, sobretudo, amada.
- Vamos casar logo! O mais depressa possvel. Vamos ter um casamento na igreja, com flores, vu e grinalda, desde que possamos arranjar tudo em pouco tempo. Quero
lev-la para casa e nunca mais deix-la.
- Meu amor!
Beijaram-se mais e mais, sem afastarem seus corpos.
Oliver beijava os olhos, os cabelos, o rosto dela, murmurando palavras de carinho. Como podia imaginar que iria encontrar o grande amor de sua vida naquela menina
que conhecera de um modo to desastrado! Mas... desde aquele primeiro instante, ela lhe parecera especial.
Agora... nada mais importava. Estavam juntos e para sempre.
Oliver carregou-a nos braos e levou-a at a cama. Eles se pertenciam, queriam se dar um ao outro.
O sol passando por entre as frestas da janela, iluminava o quarto com uma luz tnue e difusa. Tudo era paz e alegria naquele ambiente, e no corao de Oliver e Leonore.
E foi assim que se entregaram finalmente um ao outro, para o resto da vida.
